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"Vingança é principal mensagem do Estado Islâmico"

Dennis Stute (mas)22 de agosto de 2014

Vídeo que mostra decapitação de jornalista dos EUA é parte de uma estratégia de mídia ampla e extremamente profissional, diz pesquisador do islã. Grupo investe em material de alta qualidade e presença nas redes sociais.

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Foto: picture alliance/abaca

Um vídeo que mostra a decapitação do jornalista americano James Foley divulgado pelo "Estado Islâmico" (EI) nesta semana colocou o a organização extremista e sua estratégia midiática em evidência. O grupo formado por militantes sunitas atua sobretudo na Síria e no Iraque, onde já domina um terço do território.

Christoph Günther é especialista em islã da Universidade de Leipzig, na Alemanha. O foco de sua pesquisa á a cultura visual e movimentos sociais no mundo árabe- islâmico. Sua dissertação Um segundo estado na Mesopotâmia? Origem e Ideologia do "Estado Islâmico" do Iraque foi publicada pela editora Ergon-Verlag.

Em entrevista à DW, Günther fala sobre como os extremistas usam a mídia para recrutar combatentes e pessoas que possam ajudar a expandir as estruturas do grupo. As redes sociais têm ampliado o alcance dos esforços de comunicação do grupo.

DW: O chamado "Estado Islâmico" (EI) divulgou um vídeo que mostra a decapitação do jornalista americano James Foley. Qual é a mensagem por trás desse vídeo?

Christoph Günther: Vingança é a mensagem principal. A apresentação estética usa uma linguagem clara. Ao vestir a vítima com um macacão laranja, como os detentos de Guantánamo, eles estão dizendo: "Estamos invertendo a situação".

A segunda mensagem é de intimidação: "Se você usar força militar contra nós, então, vamos revidar com todos os meios à nossa disposição. Se necessário, vamos transformar em alvos todos os seus cidadãos que estão ao nosso alcance: jornalistas, funcionários de empresas ocidentais na região curda e pessoas que trabalham em organizações humanitárias".

Christoph Günther, islamwissenschaftler an der Universität Leipzig
"Um pensamento altamente estratégico e racional está por trás das ações do grupo", diz Christoph GüntherFoto: Andreas Doering

Que tipo de estratégia midiática o EI está buscando?

Ela é muito ampla. Se olharmos para os precursores do grupo, em 2003, eles produziam publicações impressas e gravações de áudio, que, algumas vezes, eram distribuídas em fitas cassetes. Nos últimos anos, a distribuição de material audiovisual cresceu tremendamente. Não só a qualidade melhorou, mas o conteúdo também se diversificou. Ainda se veem vídeos de ataques, mas não mais em má qualidade. Algumas vezes, eles são produzidos por uma equipe de filmagem, explorando diferentes perspectivas e em alta resolução.

Além desses filmes, há também vídeos que espalham a ideologia do grupo e justificam por que o "Estado Islâmico" é necessário na era em que vivemos. Combatentes e civis que tiveram um papel importante no estabelecimento do Estado Islâmico são apresentados.

Nos primeiros vídeos de propaganda da Al Qaeda, a romantização da camaradagem entre os combatentes desempenhou um papel importante.

Isso também é mostrado pelo "Estado Islâmico": combatentes que se reúnem para rezar ou recitar versos juntos, mas que também se divertem uns com os outros, rindo e nadando. Civis também são retratados, tanto em seu sofrimento quanto em eventos como festas de crianças ou excursões organizadas pelos jihadistas. A mensagem é que, "sob a proteção do 'Estado Islâmico'", uma vida segura é possível.

Quais são os principais objetivos da propagando do EI?

Se olharmos para trás alguns anos, o público alvo eram, sobretudo, jovens mulçumanos que falassem árabe e pudessem buscar publicações jihadistas na internet. Hoje, o alvo é uma audiência muito mais ampla. Eles não estão apenas tentando recrutar futuros combatentes, mas também pessoas que possam ajudar a expandir as estruturas do grupo. Eles não esperam que acadêmicos e pessoas com boa formação lutem, mas que contribuam com seu conhecimento para o projeto. Se o "Estado Islâmico" deve funcionar de fato como um Estado, então, ele precisa de um aparato burocrático, e, para isso, pessoas qualificadas são necessárias.

Qual a importância da propaganda para o recrutamento na Europa?

Ela desempenha um papel importantíssimo, porque eles estão procurando recrutar pessoas que possam enviar de volta como seguidores doutrinados, que vão passar adiante a ideologia do "Estado Islâmico". A estratégia consiste em ganhar embaixadores, que cresceram no mundo ocidental e estão familiarizados com sua cultura.

Que papel desempenham as mídias sociais?

Um intercâmbio e diálogo intensos acontecem nas redes sociais. Isso tem servido principalmente para reforçar a coesão dentro do movimento. Há alguns anos, fóruns na internet desempenhavam essa função. O uso das redes sociais tem ampliado o alcance de seus esforços de comunicação.

Como opera o Centro de Mídia Al Hayat, o braço de mídia do "Estado Islâmico"?

Em princípio, esse centro de mídia funciona como todas as outras agências de notícias. Equipes de filmagem são montadas e notícias de diferentes fontes são avaliadas, editadas num certo formato e publicadas. Essas equipes filmam os combatentes e documentam festividades, sermões ou o trabalho dos tribunais islâmicos. Isso significa que a divisão de mídia tem uma capacidade técnica extraordinária e acompanhou o estabelecimento do "Estado Islâmico", o representando de uma maneira positiva.

Você constrói a imagem de uma organização altamente racional e profissional.

No sentido de uma ação racional – se você usar argumentos do sociólogo Max Weber -, então, o grupo está agindo racionalmente, mesmo que por meio de ações que poderiam ser consideradas irracionais. Esse terrível vídeo da decapitação, por exemplo, tem um propósito muito racional, de intimidar os inimigos e consolidar o poder dentro do "Estado Islâmico". Um pensamento altamente estratégico e racional está por trás das ações do grupo.