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HistóriaAlemanha

O esforço incansável para lembrar vítimas do nazismo

8 de maio de 2019

Mais de 20 anos depois de a primeira "stolperstein" ser instalada, placas espalhadas pela Europa já homenageiam mais de 70 mil mortos. "Uma pessoa só é esquecida quando seu nome é esquecido", diz criador do projeto.

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Placas de latão com as inscrições dos nomes Willy Pese, Margot Pese e Erna Pese, mortos num "fuzilamento em massa"
Mortos em "fuzilamento em massa": pedras da família Pese estão entre as 70 mil homenagensFoto: picture alliance/dpa/M. Tödt

Como parte de um trabalho contínuo de homenagem a vítimas do Holocausto, várias das chamadas stolpersteine ("pedras de tropeço") deverão ser instaladas nas calçadas de Berlim a partir desta quarta-feira (08/05), data que marca a capitulação da Alemanha e o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Os blocos cobertos de placas latão de 10 por 10 centímetros homenageiam pessoas perseguidas e mortas pelo nazismo, e mais de 70 mil delas já foram instaladas.

As reluzentes tabuletas aplicadas sobre paralelepípedos deverão ser distribuídas em vários bairros da capital alemã pelo criador do projeto, Gunter Demnig. Os organizadores, porém, não divulgaram nem os locais exatos, nem os horários das cerimônias solenes, com a justificativa de que "as instalações das stolpersteine são acontecimentos emocionais e muito íntimos, especialmente para os familiares" das vítimas.

A primeira "pedra de tropeço" foi instalada em frente à prefeitura de Colônia em 16 de dezembro de 1992 – exatamente 50 anos depois de Heinrich Himmler, o comandante da força paramilitar SS, ordenar a deportação de membros das etnias nômades sinti e roma para o campo de concentração de Auschwitz. As primeiras linhas do decreto foram inscritas em cima do bloco. Seu interior oco continha a íntegra da ordem de deportação.

Com a expansão do projeto, Demnig, um artista e defensor do direito dos membros da etnia roma que fugiram da antiga Iugoslávia permanecerem na Alemanha, instalou mais "pedras de tropeço" – incluindo 51 placas ilegais nas calçadas do bairro berlinense de Kreuzberg, em 1996.

Um ano depois, em Salzburgo, na Áustria, Demnig fixou duas pedras com autorização oficial. Autoridades alemãs começaram a apoiar o projeto apenas em 2000. Em duas décadas, as "pedras de tropeço" se tornaram o maior memorial descentralizado do mundo dedicado a vítimas do regime nazista.

Placas de latão com as inscrições dos nomes Willy Pese, Margot Pese e Erna Pese, mortos num "fuzilamento em massa"
Mortos em "fuzilamento em massa": pedras da família Pese estão entre as 70 mil homenagensFoto: picture alliance/dpa/M. Tödt

A primeira stolperstein, a de Colônia, foi roubada em 2010. Incansável, Demnig instalou uma nova pedra no local três anos depois.

Restaurar identidades 

As placas de latão encasteladas sobre um cubo de concreto ostentam a inscrição do nome, endereço e datas de nascimento e morte das vítimas, assim como o destino da pessoa. Geralmente, as pedras são encaixadas na calçada diante do último local de residência conhecido da vítima.

O objetivo do projeto é restaurar as identidades das pessoas que foram degradadas a um número de prisioneiro ou prisioneira nos campos de concentração – e "devolver" essas pessoas aos lugares onde elas viviam.

"Uma pessoa só é esquecida quando seu nome é esquecido", diz Demnig, com frequência, parafraseando o Talmud, coletânea de textos sagrados do judaísmo. Abaixar-se para ler os textos, segundo ele, também significa curvar-se simbolicamente às vítimas.

As stolpersteine servem para lembrar todas as vítimas da Alemanha nazista – de pessoas assassinadas em Auschwitz e outros campos de concentração a sobreviventes dos campos, além daqueles que fugiram para a Palestina, para os Estados Unidos ou para outros países.

As pedras homenageiam não apenas judeus e as etnias sinti e roma, mas também membros da resistência política e religiosa, homossexuais, testemunhas de Jeová, vítimas exterminadas no âmbito do programa nazista de eutanásia em massa e pessoas consideradas pelos nazistas como "associais".

Apesar da dimensão do projeto, nem todos são a favor das "pedras de tropeço". Charlotte Knobloch, ex-presidente do Conselho Central de Judeus da Alemanha, chegou a dizer sobre o projeto que é "insuportável" ler os nomes de judeus assassinados em placas no chão que são "pisoteadas". Seus sucessores, Dieter Graumann e o atual presidente do órgão, Josef Schuster, apoiam a iniciativa.

Berlim, Buenos Aires, Estrasburgo

Atualmente, existem 7 mil "pedras de tropeço" apenas em Berlim – e mais de 70 mil espalhadas por 24 países europeus. Em 2017, a entrada da escola Pestalozzi, em Buenos Aires, se tornou a primeira localidade fora da Europa a possuir uma stolperstein. Fundada em 1934, a escola alemã foi considerada um refúgio para pessoas perseguidas pelos nazistas.

Na semana passada, 20 "pedras de tropeço" foram instaladas em Estrasburgo, na França, em homenagem às vítimas do nazismo mortas no Holocausto. Mais 30 deverão ser colocadas na cidade até o segundo semestre.

O projeto conta com a ajuda de familiares das vítimas do Holocausto, voluntários, estudantes e alunos do ensino básico do mundo inteiro. Os estudantes, por exemplo, pesquisam biografias de pessoas perseguidas durante o regime nazista.

Durante anos, o próprio Demnig confeccionou as pedras, mas desde 2005 o escultor Michael Friedrichs-Friedländer faz cada stolperstein à mão, com a ideia de opor intencionalmente o processo de criação artesanal ao aparato industrial de assassinatos dos nazistas nos campos de concentração. As pedras são financiadas por doações privadas. Custa 120 euros elaborar e instalar uma "pedra de tropeço".