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O Brasil na imprensa alemã (15/06)

15 de junho de 2022

Trajetória de Lula, futuro da Embraer e desaparecimentos na Amazônia foram destaques. "Lula enfrentará o presidente de extrema direita Bolsonaro, e todas as pesquisas apontam que Lula vencerá", destacou jornal alemão.

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Retrato de Lula
Trajetória de Lula foi destaque em jornal alemãoFoto: Joedson Alves/dpa/picture alliance

Der Tagesspiegel — De volta ao ponto de partida (14/06)

Lula governou o Brasil de 2003 a 2011 e foi considerado um dos políticos mais bem-sucedidos do mundo. Ele deixou o cargo porque a Constituição não permite um terceiro mandato. À época, seu índice de aprovação era de 83%. Barack Obama disse sobre ele: "esse é o cara!". Agora, Lula quer voltar para o palácio presidencial em Brasília. Ele enfrentará o titular de extrema-direita Jair Bolsonaro nas eleições de outubro, e todas as pesquisas apontam que Lula vencerá. (...)

Lula versus Bolsonaro: é o duelo entre dois homens que mobilizam as massas e despertam emoções. Eles são reverenciados quase religiosamente por seus seguidores, e odiados por seus oponentes. Suas visões do Brasil não poderiam ser mais diferentes.

No modelo de sociedade de Bolsonaro, os heterossexuais, forças de segurança, latifundiários, brancos ricos e cristãos conservadores dão o tom. No modelo de Lula, trabalhadores, pobres, minorias sexuais, mulheres, negros e indígenas são mais ouvidos e o Brasil se abre para o mundo.

É uma escolha de rumo – também para a América Latina, que tem o Brasil como sua maior, mais populosa e economicamente forte nação. (...)

O que há de especial na volta de Lula é que ele esteja mesmo disputando. A década que se seguiu à sua saída do governo foi marcada por catástrofes pessoais e políticas.

Os acontecimentos estão intimamente ligados a Sergio Moro. Em 2014, o jovem e ambicioso juiz começou a investigar a corrupção na estatal Petrobras, a empresa mais importante do Brasil. Com o tempo, Moro e sua equipe descobriram uma ampla rede de corrupção envolvendo centenas de políticos, funcionários e empresários. Embora políticos de vários partidos estivessem envolvidos, Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT), em particular, foram responsabilizados porque tal sistema se espalhou sob sua guarda. Ao mesmo tempo, o Brasil entrou em recessão após o boom econômico dos anos 2000.

Dessa forma, o político outrora mais popular do país tornou-se "Lula, o ladrão". A direita brasileira e mídia burguesa passaram a repetir quase incessantemente que ele e seu partido tinham arruinado o Brasil.

Isto deve ter sido especialmente doloroso para Lula porque seu governo havia sido considerado um sucesso. Ele se tornou presidente em 2003 ao convencer os brasileiros que a riqueza do país deveria finalmente beneficiar a todos, não mais apenas a pequena elite branca.

O governo Lula lançou programas sociais que foram elogiados pela ONU como exemplares. Introduziu cotas para negros e indígenas nas universidades. A economia cresceu em média 4% ao ano. O Brasil eliminou sua dívida com o FMI, o salário mínimo cresceu. De acordo com estatísticas, 40 milhões de pessoas passaram para a classe média. (...) Em 2011, no final do mandato de Lula, o Brasil era a sexta maior economia do mundo, à frente da Inglaterra.

Mas aqueles que acompanhavam a mídia brasileira poderiam pensar que Lula havia tentado transformar o país em uma ditadura comunista. Cartazes foram exibidos em manifestações: "O Brasil não se tornará uma segunda Cuba!" e "Lula na cadeia!" (...)

Em 2017, Lula foi finalmente condenado pelo juiz Moro a nove anos de prisão por corrupção. De sua cela, ele viu o antes irrelevante deputado de ultradireita e ex-militar Bolsonaro vencer as eleições. Este ainda indicou Moro como ministro da Justiça. Foi o ponto alto do contramovimento conservador. As elites haviam dado o troco. (...)

O fato de Lula poder concorrer às eleições deve-se a uma decisão da Suprema Corte de 2019, que indiretamente declarou ilegal sua prisão. [Mais tarde], seus direitos políticos foram restaurados e o tribunal decidiu que Sergio Moro havia agido de forma parcial. (...)

Lula nasceu em 1945, o sétimo de oito filhos, em uma família desesperadamente pobre no nordeste do Brasil. Sete anos depois, sua mãe se mudou com as crianças para São Paulo, onde Lula vendeu laranjas nos fins de semana e coletou lenha para sustentar a família.

Lula frequentemente enfatiza que ele sabe o que significa ser pobre e não ter acesso ao sistema de saúde. (...)

Graças a seu talento retórico, Lula foi eleito chefe de um grande sindicato de trabalhadores siderúrgicos em São Paulo em 1975. Em meio à ditadura militar, ele organizou greves – e foi preso. Em 1980, ele então fundou o Partido dos Trabalhadores com pessoas de mentalidade semelhante. (...)

"Eu devo tudo a Lula", diz Quênia Emiliano. A mulher de 31 anos está concluindo seu curso de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela se lembra como se apresentou para um estágio junto ao Ministério Público do Rio e como foi grande a surpresa no local. Porque Emiliano é negra. "As posições de poder no Brasil pertencem aos brancos", diz ela.

A jovem tem agora uma carreira como advogada pela frente – graças ao "presidente Lula", diz ela. Ele despertou nela e em milhões de outros a esperança de um Brasil melhor.

São estas memórias que Lula quer evocar. Ele não diz quase nada sobre seus planos para o futuro. Sua campanha é nostálgica. (...) "Os brasileiros terão carne, arroz e feijão em seus pratos novamente", grita Lula. "Vou construir um novo Brasil". Ele não diz como o fará, mas é o que muitas pessoas no país querem ouvir.

Süddeutsche Zeitung — A história incomum da Embraer (14/06)

Quando Francisco Gomes Neto assumiu o cargo de CEO da Embraer, há cerca de três anos, o futuro de sua empresa parecia estar claramente traçado: o grupo Boeing teria uma participação majoritária na divisão de aeronaves civis da Embraer, e as duas empresas desenvolveriam juntas novos modelos que poderiam competir com os da Airbus. Neto não precisava se preocupar com o mercado de aviação, que de qualquer forma vinha crescendo sem parar por dez anos.

Mas tudo acabou sendo diferente. A pandemia interrompeu abruptamente a era dourada da indústria, que durante dois anos ficou parada, e a demanda por novas aeronaves entrou em colapso. A Boeing acabou cancelando o negócio há muito planejado, diante da situação dramática. Neto teve então que começar a reinventar a Embraer. A virada deve ser alcançada até 2026, como uma empresa ainda independente.

A Embraer tem uma história incomum de qualquer forma. A empresa foi fundada em 1968 e cresceu por décadas no nicho das pequenas aeronaves a hélice. Nos anos 90, a Embraer foi além com os jatos regionais de 50 lugares, que estavam em plena expansão nos EUA na época, e mais tarde com os maiores "E-Jets", que são usados no mundo inteiro nas rotas em máquinas da Airbus e da Boeing são muito grandes.

Após a saída da Bombardier, a Embraer desfruta de um monopólio em jatos regionais e é o único fabricante ocidental de aeronaves civis que resta além das duas grandes corporações [Boeing e Airbus]. A Embraer é respeitada no setor por seus excelentes engenheiros e também por suas aeronaves bem projetadas. (...)

"Queremos nos beneficiar da recuperação no negócio civil", diz Neto. Entretanto, os jatos "E2" são atualmente tanto um problema quanto uma fonte de esperança. Em 2018, foram entregues as primeiras máquinas da série, que estão atualmente disponíveis em duas variantes com cerca de 100 e cerca de 130 assentos.

Mas não foi apenas por causa da pandemia que as vendas ficaram muito aquém das expectativas. Quase nenhuma companhia aérea encomendou o E2 enquanto o negócio com a Boeing ficou em modo de espera por quase dois anos – os clientes queriam esperar para ver. (...)

Os esforços de venda também esbarram no fato de que a frota E1 atualmente em operação pelas companhias aéreas ainda é relativamente jovem e ainda não precisa ser substituída. (...)

Embora a Embraer tenha atualmente um faturamento anual de apenas cerca de US$ 4 bilhões (a Airbus registrou três vezes esse valor somente no primeiro trimestre), a empresa brasileira está amplamente posicionada. Após o colapso do acordo com a Boeing, a fabricação de aeronaves civis faz novamente parte de seu negócio principal, mas a Embraer também tem uma divisão de defesa e segurança e outra para jatos executivos. "Não seremos a maior, mas queremos nos tornar a empresa mais atraente", diz Neto.

Aeronave militar r KC-390, da Embraer
A aeronave militar r KC-390, da EmbraerFoto: Marina Lystseva/TASS/dpa/picture alliance

O mercado de jatos executivos está em plena expansão. Especialmente durante a pandemia, muitos milionários investiram dinheiro em suas próprias aeronaves, e a Embraer está desfrutando de grande sucesso nessa área com seus jatos relativamente pequenos. Em termos de vendas, 2021 foi o melhor ano desde que a Embraer se tornou ativa nesse campo.

No ramo da defesa, a Embraer espera que a guerra da Rússia contra a Ucrânia mude o cenário de compras pelo mundo. "Quer você goste ou não, o mundo mudou", diz o chefe de divisão Jackson Schneider. A Embraer constrói pequenas aeronaves de treinamento com as quais pilotos podem praticar para uso em aviões de combate. [Também produz] o avião de transporte militar KC-390, que pode ser convertido em avião-tanque.

Frankfurter Allgemeine Zeitung — Desaparecidos sem deixar rastro na Amazônia (09/06)

Não foi a primeira viagem de Dom Phillips à Amazônia. O jornalista britânico que trabalha para o [jornal] The Guardian, entre outros, conhece bem a região. Nos últimos anos, viajou repetidamente para a região, que lhe desperta paixão. Ele escreveu inúmeras histórias sobre a destruição da floresta tropical e do habitat dos seus povos indígena. Desde o último domingo, no entanto, não há nenhum vestígio de Phillips.

Junto com Bruno Araújo Pereira, um especialista indígena brasileiro que conhece bem a área, ele viajava há dias pelo Vale do Javari, a segunda maior reserva indígena do Brasil, onde vivem numerosos povos isolados. Nesta região remota na fronteira com o Peru e a Colômbia, Phillips estava fazendo pesquisas para um livro no qual pretendia relatar, entre outras coisas, a destruição do habitat dos povos indígenas e suas ações de resistência.

No domingo de manhã, quando os dois voltavam de barco de um posto avançado para a pequena cidade de Atalaia do Norte, no estado do Amazonas, a duas horas de distância, seu rastro foi perdido. Pouco tempo depois, o alarme soou. Equipes de busca de voluntários indígenas, que monitoram a região contra a invasão de pescadores ilegais e outros criminosos, começaram a vasculhar a região. A resposta das autoridades foi lenta.

Foi somente na segunda-feira, mais de 30 horas após o desaparecimento da dupla e depois de muita pressão nas mídias sociais e da embaixada britânica ter sido convocada, que o exército prometeu ajudar na busca. Em apelos emocionais nas mídias sociais, a família de Phillips também pediu uma ação rápida. (...)

Os críticos acusam as autoridades de passividade. O caso, que causou grande repercussão, tornou-se uma questão política. Os parlamentares da oposição estão pedindo uma comissão externa para supervisionar a busca e as investigações.

Também são direcionadas críticas ao presidente Jair Bolsonaro, que após manter um silêncio inicial sobre o desaparecimento disse na terça-feira que qualquer coisa poderia acontecer na região. "Duas pessoas à beira do barco, numa região completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça."

Bolsonaro, conhecido por suas posições beligerantes contra jornalistas e ativistas, também expressou a suspeita de que os dois possam ter sido executados.

De fato, há evidências crescentes de que Phillips e Pereira tenham sido interceptados em sua viagem de barco para Atalaia do Norte. A região é repleta de pescadores que atuam ilegalmente nas águas do território indígena. A área de fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia também se tornou uma rota importante para o tráfico de drogas. Pessoas da região relatam que pescadores ilegais colaboram com os traficantes.

Intimidação, incluindo as ameaças de violência armada, não é incomum, dizem eles. Pereira, que trabalhava na região para a agência indígena Funai, já vivia há algum tempo sob constante ameaça. Phillips e Pereira, que haviam documentado numerosas invasões de território indígena nos dias anteriores, foram ameaçados repetidamente durante suas pesquisas, de acordo com relatos.

Cartaz com as fotos de Dom Phillips e Bruno Pereira
Dom Phillips e Bruno Pereira desapareceram em 5 junho. Caso tem tido repercussão internacionalFoto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance

Pereira planejou entregar o material coletado às autoridades competentes e ao Ministério Público. A decisão de Pereira de partir sem a companhia de voluntários indígenas pode ter se mostrado fatal. Há relatos que os membros da guarda indígena observaram um barco com pescadores ilegais seguindo os dois quando a dupla deixou o posto avançado para Atalaia do Norte no domingo de manhã. O que aconteceu em seguida não está claro.

Ameaças e ataques contra ambientalistas e ativistas indígenas não são incomuns na Amazônia. Os criminosos que vivem na região e exploram atividades como a mineração ilegal de ouro, comércio de madeira ou mesmo tráfico de drogas, bem como seus financiadores, alguns dos quais poderosos, mostram-se cada vez menos relutantes em cometer assassinatos. Em 2020, o Brasil contabilizou o quarto maior número de assassinatos de ativistas no mundo – apenas atrás da Colômbia, México e Filipinas. Na Amazônia, em particular, a lei tem um braço curto. A região é considerada uma espécie de faroeste tropical. Os cortes nos recursos das agências ambientais e da polícia federal exacerbaram ainda mais a situação. Os criminosos se sentem estimulados com a impunidade persistente.

jps/cn (ots)