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80 anos de Habermas

18 de junho de 2009

Jürgen Habermas é um dos intelectuais que mais marcaram o clima político e filosófico do pós-guerra na Alemanha. Aos 80 anos, ele é um dos filósofos mais conhecidos do país.

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Jürgen Habermas: a modernidade como projeto inacabadoFoto: dpa

Natural de Düsseldorf, o filósofo alemão Jürgen Habermas está completando 80 anos nesta quinta-feira (18/06). Quem viveu o fim da Segunda Guerra Mundial aos 16 anos não pode deixar de filosofar sobre o seu surgimento: Como a situação pôde ter chegado a este ponto? O que aconteceu com os alemães para terem posto no poder, em 1933, um homem bruto, vulgar e antissemita como governante? E principalmente: como é possível evitar que tal situação se repita?

Da mesma forma que quase todos os intelectuais de sua geração, Habermas também observou o nacional-socialismo como ponto de partida para suas considerações, sua teoria acadêmica e todos os seus comentários sobre a política contemporânea.

O nacional-socialismo e, mais precisamente, o Holocausto, afirmou Habermas em meados da década de 1980, não seria nada mais do que o ato de fundação da República Federal da Alemanha: "Princípios constitutivos universalistas apenas se formaram na nação cultural alemã, tal como gostamos de vê-la, infelizmente apenas após – e eu diria até: infelizmente apenas por meio de – Auschwitz".

Escola de Frankfurt

Juntamente com Theodor Adorno e Max Horkheimer, Habermas foi um dos principais representantes da chamada Escola de Frankfurt, que reuniu filósofos e cientistas sociais na Universidade de Frankfurt a partir da década de 1920 e teve decisiva influência, após a Segunda Guerra Mundial, no clima político e filosófico da então jovem República Federal da Alemanha.

A produção intelectual da Escola de Frankfurt baseou-se na experiência com ideologias totalitárias da primeira metade do século 20. Em seus escritos, Habermas sempre tratou da pergunta: Que lições podem ser tiradas dessa experiência para a República Federal da Alemanha e para as sociedades modernas como um todo?

Para tal, Habermas trouxe a filosofia para bem perto da sociologia, ao mesmo tempo em que tirava a filosofia de seu pedestal.

Interesses supraindividuais

Deutschland Philosophie Jürgen Habermas Frankfurter Schule
Habermas na Universidade de Frankfurt, em 1983Foto: ullstein bild - Meller Marcovicz

A ideia de que a cultura está no início da nação alemã ocupou Habermas sucessivamente. Em seu famoso livro Conhecimento e Interesse (1968), ele assinalava que o conhecimento depende constantemente de determinados interesses. Sempre que existir um pensar sobre qualquer coisa, ele é feito dentro do contexto de uma sociedade competitiva. Ou seja, qualquer pessoa pensante sempre persegue também objetivos concretos, muitas vezes em interesse próprio. Assim, o esforço pelo conhecimento não é inocente. Ele está constantemente à procura de vantagens.

Durante discurso em honra a Habermas, o professor de filosofia de Bonn Wolfram Hogrebe resumiu desta forma o pensamento do filósofo de Frankfurt: "Nós não praticamos ciências naturais e humanas gratuitamente, mas porque queremos tomar conhecimento de algo específico. E todo querer é acompanhado de interesses – normalmente individuais, mas em relação à nossa espécie, também supraindividuais, na opinião de Habermas".

Sociedades modernas

Para remediar a situação, Habermas delineou, em sua obra Teoria da Ação Comunicativa (1981), princípios segundo os quais as pessoas poderiam agir de forma a perseguir seus interesses sem provocar danos a outras. Na sociedade moderna, escreveu Habermas, o entendimento pacífico só é plausível quando os cidadãos coordenam o mais possível seus respectivos interesses entre si.

Por esse motivo, durante os protestos de 1968, ele acusou os estudantes de perseguirem seus interesses de forma demasiado veemente, ou seja, através do uso de uma violência com a qual não deve haver conivência. Isso levou Habermas a um distanciamento de vários anos do movimento estudantil, o que não abalou sua capacidade de luta.

Assim, 35 mais tarde, em 2003, Habermas protestou de forma veemente contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque. Pouco tempo depois, a mesma capacidade de luta o levou a criticar o controle insuficiente da economia, responsável pela divisão cada vez maior da sociedade.

Ampliação do próprio horizonte

Também por suas contribuições à discussão política, Habermas tornou-se talvez o filósofo mais conhecido da República Federal da Alemanha. Tanto no debate em torno da engenharia genética, do retorno das religiões ou das migrações, ele sempre sublinhou que o dinamismo e a mudança seriam princípios fundamentais das sociedades modernas.

"Quando se trata da integração de famílias de trabalhadores estrangeiros ou de cidadãos das antigas colônias, a lição é sempre a mesma: não existe integração sem a ampliação do próprio horizonte, sem a propensão a um espectro maior de aromas e pensamentos, e também a tomar conhecimento de dissonâncias cognitivas dolorosas", afirmou o filósofo.

Em termos filosóficos, Habermas foi para a República Federal da Alemanha o mesmo que a ligação com o Ocidente representou em termos políticos e o rock e a música pop, em termos culturais – o distanciamento do estilo autoritário dos anos anteriores, em direção a uma cultura de debate sóbria, mas politicamente muito mais saudável.

A filosofia de Habermas nada tem de sublime. O que ela fez foi contribuir para que a paz se tornasse um pouco mais estável na Europa, região tradicionalmente pouco pacífica. Por esse motivo, em seu 80 anos, pode-se celebrar Habermas como um dos grandes filósofos do século 20.

Autor: Kersten Knipp

Revisão: Alexandre Schossler