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Em funeral sem Putin, milhares se despedem de Gorbachev

3 de setembro de 2022

Russos dão adeus ao último líder da União Soviética, idolatrado no Ocidente por ajudar a pôr fim à Guerra Fria. Kremlin não declarou funeral de Estado e disse que Putin estava com a agenda cheia.

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Guardas de honra ao lado do caixão de Mikhail Gorbachev, durante cerimônia fúnebre
Guardas de honra ao lado do caixão de GorbachevFoto: Alexander Zemlianichenko/AP/picture alliance

Milhares de russos fizeram fila neste sábado (03/09) para prestar homenagem ao último líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, numa cerimônia fúnebre realizada em Moscou sem a presença do presidente Vladimir Putin.

A recusa do Kremlin em declarar um funeral de Estado reflete um incômodo em relação ao legado de Gorbachev, que foi presidente entre 1985 e 1991 e tentou transformar a União Soviética com reformas democráticas, mas acabou precipitando seu colapso. Uma das maiores figuras políticas do século 20, ele foi idolatrado no Ocidente por ajudar a pôr fim à Guerra Fria.

Na quinta-feira, Putin depositou, sozinho, flores no caixão de Gorbachev no hospital em Moscou onde o ex-líder soviético morreu, na última terça-feira (30/08). O Kremlin afirmou que a agenda cheia do presidente impediria que ele comparecesse ao funeral.

Russos fazem fila para dar adeus a Mikhail Gorbachev, em Moscou
Russos fazem fila para dar adeus a GorbachevFoto: NATALIA KOLESNIKOVA/AFP

Gorbachev, morto aos 91 anos, será enterrado no cemitério Novodevichy ao lado de sua esposa, Raisa, após a cerimônia de despedida neste sábado, realizada no Salão das Colunas da Casa dos Sindicatos, uma opulenta mansão do século 18 próxima ao Kremlin, que vem abrigando funerais de Estado desde os tempos soviéticos.

Durante a cerimônia, flores foram depositadas no caixão de Gorbachev, mantido aberto e ladeado por guardas de honra, ao som de música solene. Uma grande foto do político sorrindo foi disposta no salão. A filha do último presidente soviético, Irina Virganskaya, e as duas netas dele, sentaram-se ao lado do caixão.

"Quero agradecer-lhe por minha infância de liberdade, que hoje não temos", disse Ilya, um trabalhador do setor financeiro, na casa dos 30 anos, que compareceu ao funeral e se recusou a dar seu sobrenome. "Sou um filho da perestroika", disse, usando a palavra russa para as iniciativas de reforma, ou reconstrução, de Gorbachev.

Foto de Mikhail Gorbachev no prestigiado Salão das Colunas, em Moscou
Foto de Gorbachev no prestigiado Salão das ColunasFoto: Sergei Bobylev/Tass/dpa/picture alliance

Sem funeral de Estado

O elegante Salão das Colunas já foi palco de bailes para a nobreza no tempo dos czares e reuniões de alto nível, congressos e funerais de Estado no período soviético. Foi ali que o corpo de Joseph Stalin foi primeiramente disposto durante quatro dias de luto nacional após sua morte, em 1953.

Apesar da escolha do prestigiado local para a cerimônia de despedida de Gorbachev, o Kremlin disse apenas que a cerimônia teria elementos de um funeral de Estado, como guardas de honra e a ajuda do governo para organizá-la.

Declarar oficialmente um funeral de Estado para Gorbachev teria obrigado Putin a comparecer e Moscou a convidar líderes estrangeiros, algo que aparentemente o governo estava relutante em fazer em meio a crescentes tensões com o Ocidente após a invasão da Ucrânia.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, aliado de Putin e crítico às sanções impostas pelo Ocidente contra Moscou, compareeceu ao funeral. Com a Rússia isolada internacionalmente devido à guerra na Ucrânia, ele havia sido o único político estrangeiro de alto escalão a confirmar presença.

Dmitri Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia e que presidiu o país entre 2008 e 2012, compareceu ao funeral de Gorbachev. Em seguida, ele divulgou uma postagem num aplicativo de mensagens se referindo ao colapso da União Soviética e acusando os Estados Unidos e seus aliados de tentarem engendrar a ruptura da Rússia, uma política que ele descreveu como um "jogo de xadrez com a morte".

A modesta cerimônia para Gorbachev contrastou com um luxuoso funeral de Estado em 2007 para Boris Yeltsin, o primeiro líder pós-soviético da Rússia, que designou Putin como o preferido para sucedê-lo e preparou o cenário para que este chegasse à Presidência ao renunciar. Tanto Putin quanto Gorbachev compareceram ao funeral de Yeltsin.

Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, no funeral de Gorbachev
Aliado de Putin, Viktor Orbán compareceu ao funeral de GorbachevFoto: Alexander Zemlianichenko/AP/picture alliance

Putin x Gorbachev

Conhecido no Ocidente pelo apelido carinhoso de Gorby, Gorbachev recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1990. Neste sábado, bandeiras foram hasteadas a meio-mastro em Berlim, em homenagem ao político que se considera ter desempenhado papel crucial para a Reunificação alemã.

Na Rússia, os passos de Gorbachev rumo à paz e reformas foram ofuscados por problemas econômicos que se seguiram à queda da União Soviética.

Putin, que lamentou o colapso da União Soviética como a "a maior catástrofe geopolítica do século", evitou fazer críticas explícitas a Gorbachev, mas o culpou repetidamente por não ter garantido compromissos por escrito do Ocidente que excluiriam a expansão da Otan para o leste. A questão vem prejudicando as relações entre a Rússia e o Ocidente há décadas.

Em uma carta de condolências cuidadosamente redigida, divulgada na quarta-feira, Putin descreveu Gorbachev como um homem que deixou "um enorme impacto no curso da história mundial".

Críticos afirmam que, ao reprimir a mídia independente e a oposição política, Putin trabalha para desfazer os esforços de Gorbachev para trazer "glasnost", ou abertura, para o sistema soviético.

Com a campanha militar na Ucrânia, Putin busca reafirmar a influência russa sobre um dos países que conquistou a independência após o colapso da União Soviética.

lf (AP, AFP, Reuters)