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Eleições podem abrir impasse político no Reino Unido

Mike Power (av)6 de maio de 2015

Pesquisas apontam empate técnico entre trabalhistas e conservadores, o que deve abrir longas negociações para formar governo. Em jogo, estão permanência na UE, destino da Escócia e sobrevivência do atual Estado social.

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David Cameron, premiê "tory"Foto: Reuters/T. Melville

Há muito em jogo nas eleições parlamentares do Reino Unido desta quinta-feira (07/05). Um desses tópicos é a permanência do país na União Europeia, ameaçada pela promessa do Partido Conservador de realizar um referendo a respeito, caso vença seu candidato, o atual premiê David Cameron.

Outro ponto é a própria união nacional: a Escócia acena com sua saída do Reino Unido, caso se confirme a separação britânica da UE. Igualmente em jogo está a existência do Estado social e do sistema de saúde National Health Service (NHS), se os conservadores ou seus atuais parceiros de coalizão, os liberal-democratas, apostarem num novo programa de austeridade.

Ainda assim, pela segunda vez na história do pós-guerra, o eleitorado britânico parece decidido a rejeitar todas as propostas legislativas apresentadas pelos principais partidos. O que virá tomar o lugar deles é indefinido, incerto e – mesmo a poucas horas da abertura das urnas – essencialmente insondável.

UK Salford Wahlen TV Debatte Miliband Leanne Wood
Grandes e pequenos: trabalhista Ed Miliband (esq.) e Leanne Wood, do Plaid CymruFoto: Ken McKay/ITV/Handout via Reuters

As pesquisas de intenção de voto são unânimes em negar a todos os partidos a maioria necessária para regerem sozinhos a Câmara dos Comuns. Assim como em 2010, provavelmente será necessário um acordo de coalizão. Contudo, cinco anos depois daquele pleito, o panorama é muito mais complexo e volátil, devido a três fatores: as idiossincrasias do sistema eleitoral britânico, o deslocamento das alianças políticas e a ausência de uma Constituição escrita no Reino Unido.

Impasse sem precedentes

O secretário do Tesouro, o conservador George Osborne, declarou nesta semana que, se o atual premiê não conquistar maioria, ele também não se moverá até que se chegue a algum tipo de acordo. "O governo continua sendo o governo até que haja outro governo", resumiu.

De acordo com o sistema de votação adotado no país, um partido precisa controlar mais de 50% das 650 vagas da Câmara dos Comuns antes de poder aprovar leis. Matematicamente isso equivaleria a 326 assentos. Porém, como os cinco deputados irlandeses republicanos do Sinn Fein rejeitam a governança da coroa na Irlanda do Norte e não assistem às sessões, esse número cai para 323.

Robert Hazell, da Constitution Unit do University College London, principal grupo britânico de pesquisa da reforma constitucional, acredita que os dias seguintes à eleição poderão ser confusos e caóticos se tanto o Partido Trabalhista quanto o Conservador obtiverem assentos suficientes para estarem aptos a formar um governo – o que parece provável.

Em 2010 bastaram cinco dias para formar uma coalizão. Hazell aposta que, desta vez, as negociações possam se estender a semanas, já que haverá mais legendas envolvidas os partidos de menor porte também vão querer interferir.

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Debate televisivo apresentou todos os candidatosFoto: AFP/Getty Images/S. Rousseau

Matemática dura, política flexível

Mais do que o X de um eleitor ou outro na célula de votação, nesta quinta-feira são, antes, o rigor da matemática e os meandros da política que decidem a disputa pelo destino político do Reino Unido nos próximos cinco anos.

Mesmo que sejam os tories de David Cameron a abocanhar o maior número de assentos do Parlamento em Westminster, será sempre mais fácil formar um bloco anticonservador de 323 membros do que alcançar qualquer tipo de maioria pró-Tory.

As últimas pesquisas do grupo YouGov concedem cerca de 33% dos votos tanto ao Partido Trabalhista, de centro-esquerda, quanto ao Conservador, de centro-direita. Isso equivale a 276 vagas para o Labour de Ed Miliband, contra 272 para os tories, que governam o Reino Unido desde 2010, numa inquieta coalizão com os liberal-democratas de Nick Clegg.

Diante da tarefa de conquistar aliados para um governo de coalizão, o grande problema para os conservadores – os quais não têm maioria absoluta nas urnas desde 1992 – é que seus oponentes são simplesmente muito mais numerosos.

Realinhamento de parcerias

Para piorar as coisas, desde 2010 vem minguando o apoio do eleitorado a seus atuais parceiros de coalizão: as pesquisas não concedem mais de 10% aos liberal-democratas – ou apenas 24 assentos, contra 57 na eleição anterior.

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Liberal-democratas de Nick Clegg perdem eleitoradoFoto: Getty Images/M. Cardy

Na verdade, eles perderam credibilidade quase instantaneamente em 2010, quando Clegg votou com os conservadores a favor da elevação das anuidades universitárias, apesar das promessas de que resistiria a qualquer aumento.

Enquanto isso, o Partido Nacional Escocês (SNP) conquista paulatinamente o terreno do Labour em seu reduto tradicional na Escócia, com possíveis 50 assentos. Isso, por outro lado, poderá reforçar a presença trabalhista em Westminster, já que o SNP se recusa a se alinhar com os o partido de Cameron.

Incerteza como norma futura

O eurocético e populista de direita Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) sustenta 12% dos votos em nível nacional. No entanto, é improvável que conquiste mais do que um punhado de vagas parlamentares, já que tem um eleitorado difuso, cujo apoio se escoa desde as mal humoradas aparições do líder Nigel Farage nos debates televisivos.

Uma alternativa possível no panorama britânico pós-eleições é a formação de um governo minoritário, que regeria apoiado por outros partidos menores. Tanto a imprensa popular como o próprio Partido Conservador têm sugerido nas últimas semanas que uma solução desses seria, de algum modo, ilegítima. Robert Hazell, do UCL, explica que tal noção é um "total absurdo, tanto constitucional quanto historicamente".

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Nigel Farage, do Ukip, perdeu pontos por mau desempenho na TVFoto: Ken McKay/ITV/Handout via Reuters

À medida que se aproxima a abertura das seções eleitorais, continua impossível prever quem tomará a dianteira e como os partidos vão se alinhar para constituir o futuro governo nacional. Segundo Hazell, a única coisa certa é que essa nova incerteza tem tudo para ser "a nova norma" da política britânica.