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Como as armas usadas na Ucrânia contaminam o solo e as águas

7 de março de 2023

Amostras de solo mostram altas concentrações de metais pesados cancerígenos, e fundo do Mar Negro está repleto de explosivos. Acredita-se que essas substâncias nocivas possam chegar aos humanos por alimentos e pela água.

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Cartuxos de bala usados acumulados
Uma vez na água ou no solo, mais cedo ou mais tarde, produtos nocivos chegam ao homem através de plantas, animais ou da água potávelFoto: Ximena Borrazas/SOPA Images/ZUMA Press Wire/picture alliance/dpa

A dada altura, espera-se que a guerra na Ucrânia termine e, com ela, as explosões mortíferas de mísseis e bombas. No entanto, mesmo depois do término, as armas de guerra não terão esgotado o seu potencial destrutivo.

Isso porque os cartuchos, as minas e outros projéteis explosivos destroem edifícios e libertam amianto. Atingem refinarias e, assim, petróleo e produtos químicos infiltram-se no solo e em corpos de água. Mas não apenas isso: as próprias munições estão cheias de produtos químicos tóxicos. E elas vão permanecer por muito tempo no ambiente.

De acordo com a agência de notícias Reuters, pelo menos 10,5 milhões de hectares de terras agrícolas na Ucrânia estão contaminados com produtos químicos. Uma vez na água ou no solo, mais cedo ou mais tarde, esses produtos nocivos chegam ao ser humano através de plantas, animais ou da água potável. É o que afirmam os toxicólogos.

Munições contêm metais pesados

Em muitos lugares, ainda existem poucos dados sobre como as substâncias se comportam no solo e qual a sua influência na saúde humana.

"Só agora estamos começando a olhar para as munições no mar", explica o professor Edmund Maser, diretor do Instituto de Toxicologia do Hospital Universitário de Kiel, no norte da Alemanha.

Apesar de ainda existirem muitas perguntas sem resposta, estas investigações já permitem concluir que esse produtos químicos prejudicam os seres vivos.

Só no fundo do mar de áreas alemãs, mais precisamente dos mares do Norte e Báltico, 1,6 milhão de toneladas de munições de guerra estão enferrujando, diz Maser. A decomposição liberta um coquetel tóxico na água que põe em perigo o ecossistema marinho e acaba indo para os pratos daqueles que comem peixe e frutos do mar.

As substâncias mais perigosas nas munições são principalmente os explosivos e metais pesados. Entre os explosivos está o TNT (trinitrotolueno), que pertence ao grupo dos nitroaromáticos. "Sabemos através de estudos de alimentação com ratos e ratazanas que o TNT é muito tóxico", explica Maser.

"O TNT afeta a reprodução, o crescimento e o desenvolvimento dos animais marinhos", destaca. "Também sabemos por estudos com animais que o TNT e outros explosivos são cancerígenos".

Destroços de armamento em uma estrada. Ao fundo, dois soldados
Produtos químicos também podem se espalhar com o ventoFoto: Juan Barreto/AFP

Problemas de desenvolvimento e aborto

Isto também se aplica a alguns metais pesados, como arsênico e cádmio, que também são cancerígenos. "Metais pesados como o mercúrio são encontrados principalmente em detonadores, na forma de fulminato de mercúrio, para fazer um explosivo como o TNT explodir mais rapidamente", explica Maser.

O mercúrio é do grupo dos metais pesados e causa danos às células nervosas. "Ele também pode causar deformidades em fetos", ressalta Maser, acrescentando que o chumbo pode ter um efeito semelhante e levar a desordens de desenvolvimento e abortos.

Kateryna Smirnova, do Instituto Sokolovskyi de Ciência do Solo e Agroquímica da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, uma das principais instituições científicas dessa área no país, diz que amostras de solo da região de Kharkiv já mostraram concentrações elevadas de metais pesados cancerígenos, como chumbo e cádmio.

A colega de Smirnova, Oksana Naidyonova, microbiologista do Instituto Sokolovskyi, explica que os metais pesados afetam negativamente a atividade das bactérias no solo. "Eles inibem o desenvolvimento das plantas e o fornecimento de micronutrientes, o que contribui para distúrbios fisiológicos e reduz sua resistência às doenças".

Soldados atiram com obuzeiro. Em primeiro plano, um soltado tampa os ouvidos.
As substâncias mais perigosas nas munições são principalmente os explosivos e metais pesadosFoto: Libkos/AP/dpa/picture alliance

Entretanto, os produtos químicos não permanecem necessariamente somente no solo. O TNT, por exemplo, pode ser levado pelo vento e se espalhar, explica Maser.

Já as substâncias no solo podem ser levadas pelas chuvas e ir parar nas águas superficiais, acabando por contaminar riachos, rios e lagos, destaca o toxicologista.

Através de suas pesquisas nos mares do Norte e Báltico, Maser suspeita que as substâncias químicas se acumulam ao longo da cadeia alimentar. "Estamos preocupados que os seres humanos estejam em risco como consumidores finais se comerem tais peixes contaminados".

A chuva pode escoar e se infiltrar em lençóis freáticos, colocando também água potável em risco. Além disso, a água com mercúrio e similares pode se espalhar pelo solo e ser absorvida pelas plantas. Desta forma, poderia acabar no corpo humano através do consumo de plantas e cereais.

Terra contaminada para sempre?

Maser calcula que, após a guerra na Ucrânia, o Mar Negro provavelmente estará em um estado semelhante ao Mar do Norte e Báltico: cheio de munições tóxicas que são facilmente esquecidas.

O toxicologista e sua equipe estão procurando soluções para remover o TNT do mar. "Temos esperança de que as bactérias possam fazer isso". Entretanto, os pesquisadores ainda não encontraram uma que possa ser usada sistematicamente.

Maser explica que seria possível tentar remover as camadas superiores do solo para extrair os metais pesados e o TNT usando vários métodos para tornar o solo um pouco mais utilizável. Entretanto, tais medidas são caras e demoradas.

De acordo com estimativas do Instituto Sokolovskyi, os danos e perdas ao fundo agrário e aos solos da Ucrânia totalizam mais de 15 bilhões de dólares. Mas podem ser maiores.

No caso de metais pesados, "eliminação" significa apenas armazenar as substâncias perigosas em um local considerado mais seguro. Porque, como diz o toxicologista Maser, o metal pesado continua sendo um metal pesado. "Você não pode se livrar dele".