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Brasil

Opinião: Com poucas autoras, Flip não reflete a produção literária atual

Pequeno número de mulheres entre os autores convidados para a feira de Paraty está em claro descompasso com a produção literária mundial, opina o poeta brasileiro Ricardo Domeneck, radicado em Berlim.

Ricardo Domeneck é poeta e mora em Berlim

Ao ler a lista de autores convidados para a Festa Literária Internacional de Paraty em 2012, alguém poderia perguntar: "É necessário ser uma personagem literária para que uma mulher tenha maiores chances de participar da Flip?" Duvido que os organizadores acreditem que lugar de mulher seja na plateia quando se trata de um evento literário. Mas, então, por que nos últimos dois anos caiu ainda mais o número de autoras no evento?

Chama a atenção este ano o número ainda mais baixo quando comparado com o já baixo número em edições anteriores. Em 2012, foram apenas 7 mulheres entre 44 poetas e prosadores, se contarmos entre elas o cartunista Laerte Coutinho. Formam, assim, 15,9% dos escritores do evento. Sem Laerte, são 13,6%. Entre os poetas brasileiros, numa edição que tem Carlos Drummond de Andrade como homenageado, nem sequer uma única autora.

Tal número espelha outros do evento. Nos dez anos do festival, apenas uma escritora esteve entre os mortos homenageados: Clarice Lispector, em 2005, ano em que a Flip teve uma mulher como curadora, Ruth Lanna. Naquele ano, foram 7 escritoras entre 36 convidados. Ou seja, cerca de 19%. No ano de estreia, foram apenas 3 mulheres entre 25 autores. Os números cresceram nos próximos anos. Em 2004, foram 8 entre 38. Em 2006, 8/37. Em 2007, 9/39. Em 2008, 9/40. Em 2009, 7/33. Em 2010, 9/37 – o melhor desempenho dos curadores, no qual cerca de 24% dos autores eram mulheres. Em nenhum ano o número de autoras chegou a uma dezena. No ano passado o número caiu para apenas 5 mulheres entre 34 autores, o pior desempenho dos curadores nestes termos, com apenas cerca de 14%, chegando este ano aos já mencionados 15,9%.

Isso surpreende quando nos lembramos que a Flip é dirigida em sua maior parte por mulheres. O conselho editorial é formado por Liz Calder (presidente), Esther Hamburguer, Izabel Costa Cermelli (diretora executiva), Louis Baum e Mauro Munhoz. A diretora de operações é Josephine Bourgois, e sua assistente é Pauline Hartmann. As coordenadoras da Flipinha e da Flipzona são Cristina Maseda e Gabriela Gibrail. Produção e supervisão estão a cargo de Sueleni de Freitas, Roberta Val, Mariza Cermelli e Dolores Papa.

No início, a curadoria ficou a cargo de Flávio Pinheiro, em colaboração com os organizadores. Talvez esta pluralidade explique o número crescente de mulheres entre os convidados depois do evento de estreia, assim como o de escritores de fora do âmbito cultural europeu e norte-americano, mesmo que para muitos não fosse ainda o ideal. A partir de 2005, o evento passou a contar com curadores convidados e, naquele mesmo ano, com a única curadora: Ruth Lanna.

A partir daí foram apenas curadores: Cassiano Elek Machado em 2007, Flávio Moura entre 2008 e 2010, e os dois curadores com o menor número de mulheres em sua seleção desde o primeiro ano da festa, Manuel da Costa Pinto em 2011 e Miguel Conde este ano. O desempenho dos dois últimos curadores em termos de convidados não-europeus ou americanos também deixa a desejar.

O problema talvez esteja na grande responsabilidade dada a um único curador, com uma educação e conhecimento linguístico específicos, de selecionar autores para uma festa ou feira que se quer internacional. Como o inglês é a lingua franca de hoje, isso explica como a maior parte dos autores que parecem pertencer a outras esferas culturais são imigrantes ou filhos de imigrantes vivendo nos Estados Unidos e no Reino Unido. O curador deste ano, o jornalista Miguel Conde, foi procurado através da assessoria de imprensa da Flip, mas não encontrou tempo para comentar a questão.

Se estiverem corretos alguns críticos do evento em seu ataque mais frequente, o de que a Flip não reflete a produção literária internacional, mas apenas o mercado editorial brasileiro, e é controlada por algumas poucas editoras de grande porte, o problema se estende para a política de gênero comandando as escolhas das grandes editoras hoje no país.

No entanto, discutir a política de gênero na cena literária, num país como o Brasil, encontra grande resistência e ferocidade muitas vezes baseadas em ignorância e desconhecimento das discussões mais sérias do problema. Tida em geral como mero efeito colateral da mentalidade politicamente correta norte-americana, onde a crítica baseada na política de gênero levou a tentativas de exclusão de bons autores do cânone por questões extraliterárias, no Brasil é comum ouvir mesmo de escritores (mas, invariavelmente, homens brancos e heterossexuais) que o que importa é apenas a qualidade literária do texto. Gênero, sexualidade ou etnia não importam para qualquer acontecimento literário, seja a publicação ou sua recepção.

Mas seria forçoso, neste momento, perguntarmos: a literatura de qualidade sendo produzida hoje no mundo tem realmente saído da mente de mulheres em apenas 20% dos casos? É isso que a curadoria da Flip tenta insinuar? Ou as grandes editoras brasileiras decidem publicar e dar visibilidade a tão poucas autoras? Se apenas no século 20 a literatura brasileira começou a receber maior influxo de mulheres – por questões extraliterárias, como o machismo ainda dominante no Brasil, campeão de violência contra mulheres e homossexuais – começando com as poetas e prosadoras Francisca Júlia, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Patrícia Galvão e Rachel de Queiroz, certamente este não foi o caso da literatura sendo produzida no pós-Guerra e especialmente nas últimas décadas. Em âmbito internacional, fica ainda mais claro o descompasso da Flip nesta questão.

Ninguém espera que autoras sejam convidadas pelo simples fato de carregarem um útero. No entanto, ninguém pode realmente crer que o número de autoras sendo convidadas para alçar sua voz naquela que se quer a maior festa literária do país realmente reflita o de autoras produzindo literatura de qualidade no mundo. Resta esperar que as curadorias futuras percebam sua miopia de gênero.

Autor: Ricardo Domeneck
Revisão: Alexandre Schossler