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Cultura e Estilo

Museu oferece olhar controverso sobre cotidiano do lado oriental

Enquanto alguns consideram a exibição de objetos relacionados ao dia-a-dia da Alemanha Oriental importante para se compreender o extinto país, outros acham que ela atenua a brutalidade de uma ditadura.

Museu fica localizado no coração da antiga Berlim Oriental, perto do Palácio da República

Visitando Berlim como turista há alguns anos, o etnologista e cientista político Peter Kenezelmann queria explicar a Alemanha Oriental para a sua namorada. O morador de Freiburg, no sudoeste alemão, estivera em Berlim Oriental havia alguns anos. Mas a sua namorada não testemunhara a atmosfera por trás da Cortina de Ferro e, então, o casal procurou um museu que mostrasse como era a vida de cidadãos comuns do outro lado do muro.

"Tente Amsterdã", foi o que disse um funcionário do escritório de informações turísticas da capital alemã, acrescentando que alguém havia criado um museu assim na Holanda.

Pasmo, Kenzelmann, 36 anos, decidiu preencher a lacuna. Contratou uma equipe de historiadores e administradores de museus, começou a pedir às pessoas que doassem tudo o que fosse relacionado à Alemanha Oriental e encontrou um banco que aceitou financiar o projeto.

"Eu não queria depender de incentivos - nós somos um negócio", disse nesta segunda-feira (17/07), sentado do lado de fora do recém inaugurado Museu RDA, localizado no porão de um novo complexo hoteleiro e de entretenimento no coração da antiga Berlim Oriental, perto do Palácio da República, que está sendo demolido.

Participação ativa

Visitantes podem entrar num carro Trabant, exposto no museu

Kenzelmann e sua equipe querem que os visitantes toquem nos objetos. Muitos dos itens em exibição, como mochilas escolares, medalhas ou diários, estão escondidos em gavetas que foram construídas em divisórias de um quarto que lembra os pré-fabricados edifícios de apartamentos da Alemanha Oriental, os Plattenbauten. Há um carro Trabant que as pessoas podem fingir que estão dirigindo. Num canto, curadores reconstruíram uma sala de estar e cozinha típicas de tais moradias.

Jargões publicitários do lado oriental como "Aprendendo com a União Soviética significa aprender como vencer" e "Molho de maçã é sempre bom" estão escritos nas paredes. Textos curtos em alemão e inglês descrevem os itens nas várias seções, como as de educação, trabalho, compras, mídia, esportes e férias.

"Na página da internet ainda consta que o museu precisa de fotos de cenas nudistas, mas vai ver que é uma notícia antiga", comentou Heidrun Loeper com Ingrid Fischer, enquanto as duas mulheres passavam por uma grande exposição sobre a cultura do nudismo, que era popular na RDA.

Uma perspectiva diferente

Jargões do regime comunista podem ser lidos nas paredes

Loeper, uma acadêmica literária de 64 anos, e Fischer, uma ex-professora primária de 72 anos, sorriam enquanto caminhavam pelo museu e reconheciam coisas que elas mesmas usaram havia muitos anos. Ambas disseram ter gostado muito da exibição por ela ajudar a retificar a imagem dos alemães orientais.

"Nós fomos tachados de neandertais e essa exposição mostra que vivíamos como pessoas normais", disse Fischer, acrescentando que muitos alemães orientais não tinham conhecimento da existência da Stasi (a polícia secreta da RDA) e de aspectos repressores do regime.

Joseph Spadola, um estudante de filosofia de 23 anos da cidade de Nova York, concordou com a ênfase do museu na vida cotidiana. "Esse é o lado do qual nunca ouvimos falar", comentou. "É fascinante ver um modo de vida diferente, deixando a ideologia de lado."

Vozes céticas

Foco do museu é a vida cotidiana, como as moradias típicas

Mas aqueles que preferem lembrar às pessoas da natureza ditatorial da Alemanha Oriental tiveram uma impressão diferente do museu. Gabriele Camphausen, responsável por programas educacionais na comissão federal que administra arquivos da Stasi, disse que ficou impressionada ao visitar o museu.

"Visitantes podem deixar a exposição com a impressão de que isso era um Estado levemente bizarro no século 20", disse. "Não fica claro que foi uma ditadura brutal… imagine se alguém tivesse feito um museu semelhante sobre a vida cotidiana durante a era nazista. As pessoas iriam criticar, e com razão."

Hubertus Knabe, diretor do memorial da antiga prisão da Stasi em Hohenschönhausen, Berlim, acrescentou que o conceito do museu seguiu uma linha de recomendação de uma comissão do governo para se concentrar menos naquilo que simbolizasse a repressão da RDA.

"Eu sou cético quanto a acreditar que detalhes de cotidiano possam explicar uma vida em uma ditadura", afirmou. No entanto, ele lembrou que não esteve ainda no museu. "Não é importante saber como as pessoas comiam ou dormiam quando se descreve um sistema político", concluiu.

Um experimento que vale a pena?

Maquete mostrando a separação pelo muro é a primeira coisa que os visitantes vêem no museu

Mas o diretor do museu, Robert Rückel, afirmou que as infiltrações da Stasi foram claramente documentadas. Ele aponta para um canto do museu onde um aparelho de escuta da Stasi permite aos visitantes escutar conversas em outra parte do prédio. Rückel acrescentou que outros museus em Berlim já destacaram aspectos como o muro e a repressão da polícia secreta. "Nosso objetivo é focar no cotidiano das pessoas", disse. "É um experimento."

E um bom experimento, na opinião de Thomas Ahbe, um sociólogo que já escreveu extensamente sobre a cultura e identidade da Alemanha Oriental. "Completa o quadro", avaliou, afirmando que até agora os crimes cometidos no lado comunista foram amplamente documentos, mas ainda havia falha na pesquisa científica sobre a vida dos cidadãos. "Acho que ainda vai levar um bom tempo até que possamos chegar a uma visão balanceada da história da RDA."

DW.DE