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Guerra em Gaza testa limites entre críticas a Israel e antissemitismo

Volker Wagener (msb)24 de julho de 2014

Debate não é novo, mas sempre volta com novas nuances, especialmente na Alemanha e diante da nova ofensiva israelense contra o Hamas. No centro do debate, a postura da imprensa e de políticos.

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Foto: picture-alliance/dpa

"Precisamos sair desse tema persistente que é o antissemitismo", disse Dieter Graumann, presidente do Conselho Central de Judeus na Alemanha, em meados de 2012, época em que debates sobre a questão estavam em voga no país. Agora, dois anos depois, ele se encontra novamente no meio da polêmica, ao lado de políticos, jornalistas e religiosos.

"Nunca na minha vida imaginei que poderíamos novamente ouvir falar de perseguição a judeus na Alemanha", afirmou Graumann.

Em poucas horas, pelo menos 60 comentários sobre o atual conflito na Faixa de Gaza entraram na página do Conselho Central no Facebook. Segundo a organização, um quarto deles com mensagens claramente antissemitas. Alguns foram encaminhados à polícia.

No cerne de quase todas as controvérsias envolvendo debates sobre antissemitismo na Alemanha está a definição do termo – se críticas sobre a atual política do governo israelense para os territórios palestinos, sobretudo a Faixa de Gaza, podem ser consideradas antissemitas.

Lista negra

Há cerca de dois anos, uma "lista negra" dos dez maiores antissemitas em todo o mundo, produzida pelo Centro Simon Wiesenthal, causou frisson. Em nono lugar estava o jornalista Jakob Augstein, filho de Rudolf Augstein, fundador da revista alemã Der Spiegel.

Em sua coluna para a edição online da revista, Jakob criticou com frequência a política adotada por Israel com relação aos palestinos. Ele argumenta que Israel é uma democracia que atua como força de ocupação em Gaza, pressionando os palestinos. Por essas colocações, foi considerado antissemita.

Jakob contra-argumentou. Em texto publicado pela Spiegel, ele afirmou estar ciente de que ele, como alemão, não poderia ter escrito sobre Israel como fariam, por exemplo, um suíço ou um espanhol. O jornalista disse viver um conflito de papéis: seu lado alemão diz que ele deve tratar com mais cuidado assuntos envolvendo Israel; mas seu lado jornalista o obriga a ser honesto. Portanto, justificou, se ele acredita que os israelenses quebram regras, ele se sente na obrigação de falar.

Tema sensível na Alemanha

Críticas a Israel são um tema sensível na Alemanha. Acusações de perseguição a judeus são levantadas com muito mais facilidade no país do que em qualquer outro lugar da Europa. Daí a tentativa de se estabelecer critérios para determinar onde termina a crítica e onde começa o antissemitismo.

A União Europeia caracteriza como antissemita quem demoniza Israel e questiona a legitimidade do Estado, assim como quem compara a política israelense a métodos nazistas ou responsabiliza os judeus coletivamente pelo que acontece em Israel. Para Dieter Graumann, também deve ser assim tratada toda conspiração global contra os judeus, que os responsabiliza por todas as mazelas das relações entre os povos e leva a sentimentos antissemitas.

Diretor do centro de pesquisa antissemita da Universidade Técnica de Berlim desde 2011, Wolfgang Benz não enxerga grandes novidades na maneira como o assunto vem sendo abordado na Alemanha. Desde que começou a se ocupar do tema, há 30 anos, o antissemitismo no país mantém-se constante, diz ele. "O que mudou foi o sentimento com relação ao Estado de Israel", afirma o historiador.

Segndo ele, não há mais complacência sobre as políticas adotadas pelo governo israelense, mas não se trata de antissemitismo. Segundo pesquisa realizada pelo canal estatal de televisão ZDF, 18% da população alemã culpam Israel pelo conflito no Oriente Médio. Apenas 9% enxergam os palestinos como principais responsáveis.

Política e mídia

Em nenhum país da Europa o que se diz a respeito de Israel desperta reações tão rapidamente e impetuosamente como na Alemanha. E isso pode ser observado, sobretudo, nas prontas manifestações solidárias aos judeus por parte de políticos e jornalistas quando algum caso é levado a público.

Por um senso de vergonha gerada por motivos históricos, eles imediatamente reagem contra o antissemitismo antes mesmo de a acusação ser, de fato, confirmada como antissemita.

Rolf Verleger, ex-integrante da Conselho Central de Judeus na Alemanha, diz que a mídia e as classes políticas são corresponsáveis por promover palavras de ordem antissemitas.

Ele avalia que, como jornalistas ou políticos afirmam que tudo o que Israel faz está correto e representantes do judaísmo pregam que quem é contra Israel é também contra os judeus, isso acaba provocando a criação de slogans e palavras de ordem antissemitas. Por isso, defende, não se deve tomar partido publicamente sobre tudo o que Israel faz.

Apesar da hostilidade e até mesmo da violência física contra judeus na Alemanha, Daniel Cohn-Bendit não teme pela estabilidade da sociedade alemã – nem pela francesa. O político do Partido Verde acredita tratar-se de um antissemitismo ligado a questões migratórias, no caso da França, e cristãs, na Alemanha. E ambas, afirma, sempre existiram.