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Cultura

Estreia mundial de "Sonntag" de Stockhausen combina megalomania e beleza intimista

Sob direção de membro do Fura dels Baus, "Sonntag", do ciclo "Licht", é apresentada três anos após morte do criador. Um espetáculo de dança, música, teatro e multimídia acompanhado por sons extraterrestes.

Tenor Hubert Mayer

Karlheinz Stockhausen foi um dos mais importantes compositores do século 20 e, para muitos, objeto tanto de culto quanto de controvérsia. O pioneiro da música eletrônica influenciou os caminhos não apenas da tendência "erudita", como prova sua presença na capa do legendário álbum dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Ainda assim, as obras do músico nascido em 1928 em Mödrath, próximo a Colônia, jamais alcançaram o que se possa chamar de popularidade de massa.

Dançarinos Alain Zambrana Borges e Elisa Marschall

Dia do louvor divino

O músico trabalhou mais de um quarto de século na heptalogia lírica Licht (Luz). Ultrapassando até as dimensões do Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, o resultado foram 29 horas de música, distribuídas por sete "dias", cujo tema é, nada mais, nada menos, do que a existência humana.

Montag (Segunda-feira) é o dia do nascimento, do início da vida. Mittwoch (Quarta-feira) é descrito como um "dia da cooperação". Esta ópera inclui o famoso Helikopter-Quartett, em que os componentes de um quarteto de cordas, tocam, de fato, a bordo de um helicóptero em voo. Sonntag (Domingo) é o dia universal da adoração divina, da luz e da alegria.

Até o presente, apenas partes isoladas de Licht haviam sido apresentadas em público, por exemplo, em Milão e em Leipzig. O ciclo não é destinado a uma casa de ópera convencional: a intenção de Stockhausen era, antes, explorar novos espaços com sua música.

Efeito ao vivo incomparável

Karlheinz Stockhausen em meados dos anos 1960

Para a estreia mundial de Sonntag em Colônia, foram construídas duas salas provisórias, na Staatenhaus, um pavilhão de exposições tombado, em estilo art déco, situado na Koelnmesse, vasto terreno para feiras industriais. As cinco horas de música foram divididas em duas récitas – o desejo do compositor era até mesmo a divisão em três noites.

Os 600 espectadores presentes a cada uma das apresentações tiveram uma amostra da raummusik (música espacial) stockhauseniana como só é possível vivenciar ao vivo. O compositor, aliás, comparava gravações de sua obra a "cartões postais da Catedral de Colônia".

"Esta récita é uma oportunidade única de conhecer a música da forma como Stockhausen a imaginou", afirmou Marco Blaauw, trompetista do conjunto instrumental musikFabrik. "O público se encontra em meio aos músicos e ouve como a música o rodeia."

Sons, imagens, cheiros...

"Há pouco recebi uma carta em que Stockhausen dizia: 'Licht tem que ser apresentada em Colônia!'", relata Kathinka Pasveer. A flautista holandesa, companheira do compositor, dirigiu o espetáculo a partir da mesa de mixagem.

Até a morte em dezembro 2007, era sempre o próprio Stockhausen quem se encarregava da direção sonora, em seus concertos. "Porém nesses anos a seu lado, também aprendi uma coisa ou outra", afirma Pasveer.

Ela esteve responsável por uma sequência de execução extremamente complexa. Nesse gesamtkunstwerk ("obra de arte total", conceito cunhado por Wagner), Stockhausen "compôs" não só os sons, como os gestos, as cores dos figurinos e até mesmo os aromas. Na quarta cena, intitulada "Zeichen-Düfte" (Aromas-sinais), por exemplo, foram aspergidos no salão sete tipos diversos de incenso.

Maratona para solistas, orquestra e ouvintes

Anna Palimina (Eva) durante os ensaios

A cena final – a quinta, e que é também a cena-chave – de Sonntag leva o nome "Hoch-Zeiten" (jogo de palavras com "casamentos" e "tempos altos"). Ela é executada simultaneamente em dois locais: Hoch-Zeiten für Orchester na sala B e Hoch-Zeiten für Chor na sala A.

O público é dividido em duas partes: uma parte fica sentada na sala da orquestra, onde cinco grupos instrumentais e cinco regentes apresentam uma música francamente sensual. Da sala do coro foram retiradas todas as cadeiras. Cinco grupos de dançarinos circundam o público de pé ao som de solenes cantos corais.

Projeções de vídeo mostram por vezes um bazar árabe, por vezes a Catedral de Colônia. O som de cada sala é transmitido para a outra. Após a última nota e uma breve pausa, os espectadores trocam posições, e a sequência é repetida.

Arte visionária e estética de teatro de rua

As cinco cenas de Sonntag podem ser descritas como um único canto de louvor à divindade, em que se procura unir todas as religiões do mundo. Em certos momentos ouve-se canto gregoriano, em outros, cantam-se versos do Alcorão.

No total, contudo, Licht é bem mais do que só música: trata-se, nada mais, nada menos, do que a tentativa de recriar musicalmente o universo. "Em sua música, Stockhausen sonha com uma humanidade melhor, uma humanidade mais musical", explica Pasveer.

Entre os executantes estiveram Anna Palimina, Carlos Paz, Hubert Mayer e os dançarinos Alain Zambrana Borges e Elisa Marschall. As visões futuristas do compositor foram traduzidas em imagens pelo diretor e coreógrafo Carlus Padrissa, da trupe catalã La Fura Dels Baus, juntamente com seus dançarinos. No entanto, permanece controverso se essa estética de teatro de rua realmente se harmoniza com as intenções de Stockhausen. Segundo o próprio Padrissa, "aqui é a música que dirige, e é bom que seja assim".

Aplaudida entusiasticamente pelos fãs de Stockhausen, para muitos a estreia em Colônia representou uma experiência profunda, até mesmo íntima. "Cada um que entra, retira o que quiser retirar", analisa Blaauw. Ele discorda dos clichês de que esta seria uma música cerebral e de difícil acesso, ou de cunho religioso ou espiritual: "O que me toca emocionalmente como músico é o fato de que cada momento, cada segundo é absolutamente forte e belo", resume o trompetista.

Marco Blaauw (trompete) e Hubert Mayer

Autoria: Anastassia Boutsko / Augusto Valente
Revisão: Bettina Riffel

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