Alguns cientistas e políticos alemães consideram ultrapassada a lei que restringe o uso de células-tronco embrionárias na pesquisa científica, mas opositores de uma reforma da lei temem abuso de embriões humanos.
Extração de células de um embrião
Embrião humano multicelular
Além da qualidade duvidosa das células importadas antes de 2002, Jörg Hacker, vice-presidente da Fundação Alemã de Pesquisa, aponta uma outra razão para reivindicar uma reforma da lei. "Cientistas alemães envolvidos em projetos internacionais que utilizem linhas de células-tronco posteriores a 2002 podem ser punidos pela lei", explica. Isso significa que os cientistas alemães não têm permissão de participar de projetos internacionais de pesquisa nesse sentido, sob o risco de serem processados na Alemanha. Vantagens médicas x preocupações éticas Células-tronco de embriões podem se transformar em qualquer tipo de célula, o que as torna promissoras como fonte de cura para doenças como diabetes, mal de Parkinson e distúrbios cardíacos. Antes, as células só podiam ser extraídas à medida que se destruísse o embrião humano, o que para muitos significa homicídio. Os antecedentes históricos dos experimentos médicos nazistas com seres humanos contribuíram para a sensibilidade alemã nesse ponto. A proposta de uso científico de células-tronco embrionárias permite apenas linhas de células-tronco de embriões "adicionais", que não são implantados, mas se desenvolvem durante tratamentos de fertilização in vitro. Importar linhas de embriões gerados exclusivamente para a pesquisa de células-tronco continua proibido. "Há uma clara distinção entre um pré-embrião e sua implantação no útero", afirma Hescheler. "Essas células embrionárias são material humano a ser respeitado, mas não as vejo como verdadeiros embriões com funções e desenvolvimento cerebral e orgânico." Ele acrescenta que a verdadeira vida humana começa após o êxito da subseqüente implantação no útero. Porta-vozes da ética discordam entre si Em um posicionamento ao Conselho Nacional de Ética da Alemanha, em 2007, o teólogo Hermann Barth argumentava que a lei de 2002 "resultava de um consenso no qual tanto os defensores de uma ampla proteção ao embrião como aqueles a favor da liberdade de pesquisa acabaram deixando de lado suas convicções mais extremas". Barth, que defende maior liberdade para os pesquisadores, considera sensato ampliar a margem temporal para a importação de embriões. Isso faria jus aos princípios normativos da lei de proteção embrionária e ao espírito da lei de 2002.
Técnica de cisão embrionária
Mas outros membros do Conselho de Ética também se pronunciaram no ano passado, afirmando que "uma mudança no prazo de 1º de janeiro de 2002 significaria endossar a destruição de embriões no exterior e tirar proveito dos procedimentos repudiados na lei de proteção embrionária". A lei de proteção embrionária, de 1990, proíbe qualquer utilização de embriões que não vise estritamente à sua preservação. A conseqüência lógica, segundo essa argumentação, seria uma reavaliação dessa lei alemã. "Então, seria o caso de repensar se não seria mais coerente utilizar cientificamente embriões e óvulos fecundados que não podem mais ser usados para fins de reprodução do que importar células do exterior", opinam esses membros do conselho. Uma mudança no debate Ironicamente, avanços científicos podem colaborar para amenizar o debate ético. Em novembro passado, equipes de pesquisadores norte-americanos e japoneses anunciaram ter conseguido reprogramar células de pele humana para funcionarem como células-tronco embrionárias. Isso poderia significar que os cientistas deixariam de depender das células embrionárias para realizar suas pesquisas. Contudo, segundo ressalvou Hacker, "essas células reprogramadas ainda teriam que ser comparadas com as verdadeiras células-tronco embrionárias para ver ser funcionam de fato do mesmo jeito". Logo depois do anúncio dessa ruptura na pesquisa científica, em novembro, o governo alemão anunciou que duplicaria as verbas destinadas à investigação de células-tronco de 5 milhões para pouco menos de 10 milhões de euros. Contudo apenas para células-tronco de adultos.