As impressões de uma primeira audição de Isolée são difíceis de transcrever em palavras. Não é fácil abordar seu processo criativo, assim como é difícil reconhecer o que é que torna sua música tão irresistível.
Música eletrônica que não é feita para dançar, mas que é perfeitamente adaptável à pista de dança? Ou antes um som dançante que se adapta perfeitamente a momentos contemplativos? Claro que este velho paradoxo da crítica musical já deve ter enchido o saco até de leitores menos sensíveis, mas sem ele não se consegue chegar a lugar algum se o assunto é Isolée.
Imprevisivelmente genial
Desde o lançamento do álbum de estréia Rest, em 2000, Isolée vem sendo endeusado por ouvintes do mundo todo como um dos grandes da cena mundial. Na época, o hit Beau Mot Plage virou trilha sonora do verão e hoje é tida por críticos e ouvintes como um clássico do gênero, com lugar de honra na história da música eletrônica.
Isolée = Raiko Müller
E tudo isso aconteceu sem que Raiko Müller, o gênio por trás do nome, quisesse, ou sem que ele ao menos pudesse prever. Para muitos, essa é a razão da demora de cinco anos para que ele voltasse e gravasse um novo álbum.
Digitalizando as ondas
Müller nasceu na cidade de Frankfurt, mas mudou-se aos sete anos com os pais para a Argélia, onde viveu até completar 12 anos. De volta à cidade natal, enveredou-se pela então ativíssima cena de synth pop, à qual eram enquadradas bandas de sucesso como Depeche Mode e Human League.
Ele logo se equipou com um sintetizador e uma bateria eletrônica mas, com a decadência do estilo no final dos anos 80, preferiu seguir tendências mais alternativas até se familiarizar com tecno e similares. Suas primeiras faixas chegaram através de um amigo aos ouvidos especializados da gravadora Playhouse, que resolveu dar ao novato uma chance.
Seus primeiros trabalhos conquistaram pela leveza com que transformam, por exemplo, melodias latinas típicas da bossa nova em música dance sintética e metálica sem que isso soasse frio (Beau Mot Plage). Com o álbum Rest, ele compôs um trabalho do qual as pessoas se lembram com prazer mesmo passados muitos anos. E isso num gênero musical que já foi tarjado de "impessoal", entre outros xingamentos.
De anjos e monstros
Em We Are Monsters, Isolée repetiu a proeza. Como definiu a revista alemã Spex, Isolée faz "música de possibilidades, que escapa de qualquer rotulação. Tudo pode ser, nada tem que ser, quando se toca Isolée. Pode-se dançar, mas não é necessário dançar, todas as faixas funcionam perfeitamente em casa".
Isolée soa moderno e penetrante como muitas composições de minimal house europeu, com linhas de baixo influenciadas por funk e soul, muitas vezes de tirar o fôlego como a boa e velha disco music (My Hi-Matic) e sem medo de abusar de efeitos psicodélicos – como ecos e guitarras (Today) – ou de outros mais herméticos ou orgânicos (Enrico).
Da pista pro sofá, do sofá pra pista – é tudo uma questão de volume.
O vencedor do CD Unausgesprochen, de Annett Louisan, sorteado por esta coluna no mês passado, é Vinícius Augusto Andrioli, de Porto Alegre (RS). O CD de Tom Albrecht saiu para Rafael Rodrigues, de Sorocaba (SP). Não se preocupem, vocês serão avisados por e-mail e receberão o prêmio no endereço fornecido.