Mais de uma década após a derrocada da ditadura e da ameaça vermelha, a Alemanha unificada vive hoje uma crise de desemprego e de identidade. Deixaram de existir as imagens claras do mundo dualista da guerra fria. O inimigo soviético foi substituído por uma Rússia, quase dócil e amiga. E tornaram-se tensas as relações com o antigo aliado americano. Um solo fértil para a nostalgia de tempos passados – como os da RDA – em que o dia-a-dia tinha um caráter provinciano e pacato, apesar da mão-de-ferro da ditadura.
"Ostalgie" em todas as partes
Trabant, o carro da RDA
A chamada "Ostalgie" (um neologismo alemão criado a partir das palavras Ost – leste – e Nostalgie – nostalgia) apresenta facetas curiosas. A primeira delas é o fato de que se disseminou não apenas no antigo lado oriental da Alemanha, mas em parte até mesmo entre os alemães ocidentais que nunca viveram sob o regime comunista alemão e sempre rejeitavam antes tudo o que se relacionasse com a RDA.
Agora, os produtos da antiga Alemanha comunista estão sendo recriados e comercializados, por exemplo, na Baviera e em Baden-Württemberg, os Estados que são considerados os mais bem sucedidos modelos do capitalismo alemão. Os pepinos em conserva da RDA (Spreewald Gurken) são oferecidos com a mesma embalagem antiquada com que se apresentavam nas prateleiras quase vazias dos supermercados de Berlim Oriental, na década de 80.
Trabant e parque temático
Em Berlim, o empresário Rico Heinzig foi tomado de surpresa pelo inusitado êxito de seu empreendimento: ele oferece aos turistas um passeio de Trabant – o pequeno automóvel, que era um dos símbolos da Alemanha Oriental – pelas ruas da capital alemã. O número de interessados aumentou tanto que Heinzig terá de buscar novos Trabant (o carro já deixou, há muito, de ser fabricado) para atender à inesperada demanda.
Mas o que realmente está fazendo furor é o projeto anunciado por um grupo de investidores da parte ocidental da Alemanha: a criação em Köpenick, um bairro de Berlim, de um parque temático sobre a Alemanha Oriental. Uma área de 10 mil metros quadrados será transformada numa RDA reconstruída, bastante fiel à imagem do antigo Estado comunista alemão. Com os mesmos guardas de fronteira mal humorados, com o câmbio compulsório de divisas para os turistas, carros Trabant pelas ruas e a venda exclusiva de produtos alemães orientais. Mesmo que, para isto, tenham de ser "recriados" os produtos de consumo da extinta RDA.