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Contraste

"Escola da Amizade" – Solidariedade internacional?

899 crianças moçambicanas em plena RDA. Milhões investidos. Um projecto de solidariedade internacional. Ou, antes, de interesse nacional? Uma conversa com ex-alunos e professores da Escola da Amizade (1982-1988).

Poucos dias depois da abertura...

A Escola da Amizade, "Schule der Freundschaft", em Staßfurt poucos dias depois da abertura...

3 de Março de 1983: o Presidente da República Popular de Moçambique, Samora Machel, e e a Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker, visitam a "Schule der Freundschaft" em Staßfurt.

3 de Março de 1983: o Presidente da República Popular de Moçambique, Samora Machel, e a Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker, encontram a direção da "Escola da Amizade - Schule der Freundschaft".

Samora Machel disse uma vez que “a formação de crianças deveria ser como um tomate. Quando está maduro, explode e as sementes voam para os lados.” A ideia de Machel, o primeiro Presidente da República de Moçambique e, naquela altura, finais dos anos 70, líder do partido FRELIMO, adequa-se bem à “Escola da Amizade”.

O projecto da instituição veio assinado na bagagem da visita a África em 1979 por Erich Honecker, secretário-geral do Partido Socialista Unificado da República Democrática Alemã (SED). Era um de diversos acordos de Amizade e Cooperação.

Uma escola na RDA para crianças moçambicanas

Três anos depois, o edifício estava em pé. Foi construído na pequena cidade de Staßfurt, perto de Magdeburg na província da Saxónia-Anhalt, na Alemanha de Leste. Lá, iriam viver durante quatro anos 899 crianças moçambicanas. Lá, estas crianças iriam receber formação escolar e, depois, profissional. Iriam tornar-se pedreiros, soldadores, lavadeiras…

A Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker, de visita na Escola da Amizade no dia 25 de Junho de 1983.

A Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker, de visita na Escola da Amizade no dia 25 de Junho de 1983.


Embora a formação política tenha sido entregue à responsabilidade dos professores moçambicanos, a ideologia socialista era uma constante no dia-a-dia da escola, que se terá tornado na predilecção de Graça Machel, mulher do presidente moçambicano e, na altura, Ministra da Educação do país.

A “Escola da Amizade” era oficialmente um símbolo de solidariedade internacional. Mas também para a RDA a instituição deveria trazer vantagens – sobretudo económicas, o que tornava a intenção do projecto um tanto questionável.

O colapso da Alemanha de Leste

O álbum de Heinz Berg não contém apenas fotografias. É, antes, uma selecção de material recolhido e tratado com dedicação

O álbum de Heinz Berg não contém apenas fotografias. É, antes, uma selecção de material recolhido e tratado com dedicação

Em 1988, um ano antes do colapso do bloco comunista e, com ele, da RDA, a “Escola da Amizade” chegou ao fim. A primeira geração de adolescentes moçambicanos tinha terminado a formação e regressado ao seu país. Mas Moçambique ainda estava em guerra e, no país, não se falava das medidas de desenvolvimento previstas.

A maioria dos ex-alunos da “Escola da Amizade” não regressou à Alemanha, depois do regresso a Moçambique previsto para logo que a formação terminasse. Um dos poucos que hoje vive em Staßfurt é Custódio Tamele. Heinz Berg, o ex-director do internato da escola vive na região. E Joachim Scheuermann, o professor de Física, também.

Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, Marta Barroso conversou com os três e viu-os regressar a tempos antigos – ao folhear de um álbum de fotografias a preto e branco.

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