Ao preparar esta entrevista, perguntamos aos nossos ouvintes chineses o que eles gostariam de perguntar ao Dalai Lama. A participação foi grande. Uma das perguntas foi a seguinte: se o Tibete conquistasse a autonomia que o senhor reivindica, o que aconteceria com os chineses da etnia majoritária han que vivem no Tibete? Eles teriam que retornar à China?
Pintura religiosa tibetana do século 13
Para resumir, a autonomia que reivindico implica que o governo central se ocupe da defesa e da política externa. Questões locais, como cultura, religião, meio ambiente, economia etc. devem ser regradas pelos tibetanos.
Quanto ao Grande Tibete, a autonomia reivindicada por nós não é de natureza política, mas sobretudo religiosa e cultural. Sendo assim, como definir o espaço cultural tibetano? Estamos discutindo justamente esse problema. Nunca dissemos que queremos nos separar da China. O que reivindicamos dentro da República Popular da China é uma autonomia religiosa e cultural.
Qualquer alteração das divisões políticas também tem que ocorrer dentro dos limites da República Popular da China. No passado, a estipulação dos territórios autônomos dos coreanos e dos mongóis também mudou, por exemplo. Isso mostra que a distribuição de territórios não é imutável.
A proteção e o desenvolvimento da religião e da cultura tibetanas ocorre há mil anos em todo o território dos tibetanos, não apenas em uma parte específica. Não pode ser que a cultura tibetana seja protegida somente em determinadas partes do país e em outras não. A cultura e a religião tibetanas devem ser cultivadas e desenvolvidas como um todo. Os acontecimentos do ano passado não ocorreram apenas nas região autônoma do Tibete. Os tibetanos em Qinghai, Sichuan ou Yunnan também exigiram a proteção de sua cultura e autonomia.
A autonomia é um desejo comum de todo o povo tibetano e não apenas de uma parte. Sempre dissemos que somos defensores do povo tibetano. Dentro do Tibete, a situação dos tibetanos é muito difícil. Eles têm pouco espaço e não têm possibilidade de expressar seus desejos. É por isso que falamos como representantes de todos os tibetanos. Não podemos ignorar uma parte deles, não podemos fragmentar o Tibete e só falar por uma parte, senão ficaríamos com a consciência pesada em relação aos outros.
O último Panchen Lama também expressou o desejo de que todos os tibetanos adquiram autonomia cultural e religiosa. Em 1956, o próprio Marechal Chen Yi favorecia esse desejo! A autonomia que reivindicamos é apenas de natureza cultural e religiosa. Não há motivo algum de apreensão.
Quanto aos chineses no Tibete, aqueles que já vivem na região há mais de cem anos continuam sendo bem-vindos mesmo no caso de uma autonomia. Ninguém vai proceder contra eles. Afinal, eles constituem uma parte do Tibete.
O que nos preocupa é que, se adquirirmos autonomia, deverá ser a autonomia dos tibetanos. Se os han constituírem a maioria, isso é inaceitável para nós. Ser minoria no próprio país não representa uma autêntica autonomia.
A China defende seu domínio sobre o Tibete com três argumentos. Primeiro, com o argumento histórico de que o Tibete sempre pertenceu à China desde o domínio mongólio; segundo, com o argumento da libertação, segundo o qual o Tibete vivia até o século 20 sob um regime feudal sombrio, derrubado pelo Exército de libertação chinês com aclamação das massas tibetanas; terceiro, o argumento do desempenho, segundo o qual Pequim investiu muito no Tibete e que a região nunca esteve melhor. Alguns exemplo disto seriam a restauração do Palácio Potala e a construção de uma linha de trem até Lhasa. O que o senhor teria a objetar?
Quanto ao argumento histórico, os ingleses – quando estavam na Índia – também ressaltavam o quanto haviam feito para os indianos, quantas ferrovias tinham construído, etc. A história é muito complicada. Há diferentes versões da história. O governo chinês tem a sua, e os intelectuais chineses, sobretudo os intelectuais independentes, desenvolveram uma outra versão através de uma pesquisa autônoma. Os tibetanos têm a sua versão e os ocidentais também. Por isso, tudo é muito complicado.
Fato é que, entre os 6 milhões de tibetanos, nem um único se denominaria um chinês han. Na língua tibetana, isso está claramente regrado. "Jia" é China, "Bo" é Tibete e "Hor" é a Mongólia. Esses conceitos existem há mais de mil anos. Não se trata de uma invenção recente. O conceito China existe no Tibete há apenas pouco mais de 60 anos; esse, sim, é um conceito novo. Mas não quero brigar por causa de conceitos. História é história, é passado.
Crianças tibetanas vendo o trem passar perto de Lhasa, em 2006
Quanto ao argumento do desempenho, como por exemplo a construção da ferrovia no Tibete, havia muita gente cética. Eu foi a favor dessa medida. Quanto ao desempenho de reconstrução após a chamada libertação, o Panchen Lama disse algo importante pouco antes da sua morte: os sofrimentos e dores dos tibetanos pesam bem mais do que aquilo que a China construiu e desenvolveu no Tibete.
Uma investigação independente, livre e aberta seria importante. Seria necessário investigar a história e o desenvolvimento dos últimos 60 anos de forma profissional, justa e aberta. E divulgar o resultado.
Durante muitas viagens e todo o mundo, sempre peço que as pessoas visitem o Tibete. Os estrangeiros devem se informar in loco. Se eles constatarem que 99% dos tibetanos são felizes, isso significa que nossas informações são falsas. Então nos desculparíamos em público por ter propagado informações falsas no passado. Mas se os tibetanos estiverem infelizes, então o governo chinês deveria aceitar essa realidade e adaptar sua política a essa realidade.
Autor: Dai Ying
Revisão: Alexandre Schossler