Mesmo entre os tibetanos no exílio, muitos consideram fracassado o "caminho do meio" representado pelo senhor há 20 anos. Como o senhor lida pessoalmente com essa crítica?
A ideia do "caminho do meio" surgiu nos anos 70. Tomamos essa decisão em 1974. No ano de 1951, por ocasião da assinatura do Acordo de 17 Pontos para a Liberação Pacífica do Tibete, o pensamento central era o caminho do meio. Mas tanto entre os tibetanos, como também entre quem os apoiava na Índia e no Ocidente, muitos achavam que o "caminho do meio" era uma exigência moderada demais. Afinal, o Tibete era um país independente na história. E por isso deveríamos reivindicar um Tibete independente. Essa opinião é bastante propagada entre os tibetanos e quem os apoia.
Dalai Lama com Mao Tse Tung, em 1956
Há muito tempo que praticamos o princípio democrático; por isso é que, entre nós, críticas e opiniões diferentes são bem-vindas. Mao Tse Tung sempre defendeu crítica e autocrítica dentro do partido. O partido depende da crítica interna, como o peixe da água. Sem água, o peixe não pode sobreviver. Essa tradição de crítica e autocrítica não existe mais na China. Mas na nossa comunidade no exílio, começamos a praticar isso.
Se considerarmos todos os aspectos do Tibete, como por exemplo religião, cultura e desenvolvimento econômico, talvez a questão tibetana não se restrinja somente à independência política. É preciso enxergar longe. O Tibete precisa de desenvolvimento moderno; isso é muito importante. Muitos tibetanos também querem o desenvolvimento econômico. O nosso caminho do meio tenta atender a esses interesses comuns em toda a China.
Sempre gosto de mencionar o exemplo da União Europeia. Na Europa houve diversas guerras sangrentas por independência. Mas agora se fundou uma comunidade sobre o fundamento dos interesses comuns. Trata-se de uma decisão condizente com a realidade.
O verdadeiro sentido do caminho do meio é servir ao interesse comum. De forma alguma somente em prol dos tibetanos, de todas as pessoas. Para os tibetanos, isso significa uma melhoria nos âmbitos da religião, da cultura e da proteção ambiental. O fato de pertencer à República Popular da China ajuda o Tibete no desenvolvimento econômico e material. Foi por isso que desenvolvi a ideia do caminho do meio, pois ela serve aos dois lados. A meta do nosso empenho é melhorar a situação no Tibete.
Tibetanos protestam em Lhasa, em março de 2008
Os acontecimentos do último ano nos mostraram, no entanto, que nossa tentativa fracassou. E por isso que começamos a refletir sobre como prosseguir. Reunimos propostas e convocamos uma grande assembleia extraordinária dos tibetanos. Também nos esforçamos para reunir opiniões no próprio Tibete. Antes do encontro, eu disse ao primeiro-ministro do governo de exílio que a nossa conferência deveria ser democrática. Não devemos fazer como os comunistas, impondo nossa linha de antemão e mandando os delegados simplesmente aprová-la. Não podemos fazer isso de jeito nenhum. Devemos sustentar nossas decisões somente nas opiniões do povo.
Nosso empenho por melhorar a situação no Tibete fracassou; agora o povo deverá decidir o curso das coisas. Durante a conferência houve muitas vozes que se pronunciaram contra o caminho do meio e a favor da independência. Mas a maioria acha que o caminho do meio corresponde ao interesse coletivo e é mais realista. O resultado da discussão foi que a maioria optou pelo caminho do meio.
Depois disso, convocamos em Nova Délhi uma conferência de todos os grupos que apoiam o Tibete no mundo inteiro. Nessa ocasião, o debate também foi bastante controverso. Mas por fim, o grêmio também decidiu apoiar o caminho do meio. É por isso que, apesar de nos confrontarmos com muitas dificuldades, continuamos seguindo o caminho do meio.
No ano passado, encontrei diversos intelectuais, cientistas e especialistas chineses. Tiramos grande proveito deste contato. No dia 6 de agosto, realizaremos um simpósio com diversos chineses, a fim de ouvir suas opiniões e propostas.
Apesar de a China ser um país forte com uma grande população, ela não deixa de ser parte do planeta. O mundo inteiro está em mudança. Essa tendência é irreversível. Temos que aceitar. Não dá para se desenvolver em isolamento.
Propaganda comercial nas ruas de Beijing
Antigamente, quando eu ainda estava na China, ouvia falar muito de marxismo, leninismo etc. Hoje ninguém mais ouve falar de marxismo-leninismo. A única coisa que importa é o poder, nada mais. Na época se dizia que os imperalistas americanos praticavam o capitalismo e que, diante do desenvolvimento inevitável da sociedade, o capitalismo estava condenado ao fracasso. Mas esse fracasso aparentemente não ocorreu até agora.
Tudo se reverteu. Antigamente, o que imperava na China era o socialismo; hoje, é o capitalismo. Nesse ponto, a China se adaptou à tendência mundial. A era dos sistemas totalitários e antilibertários está acabando.
Se, nos últimos 60 anos, a China tivesse tido democracia, liberdade, Estado de direito, meios de comunicação livres e uma sociedade transparente, talvez nem houvesse a questão tibetana e agora a questão de Xinjiang. Para o futuro de um país tão grande como a China, o único caminho é provavelmente a democratização. Se a China adotasse o rumo da democracia e da liberdade, estaria de acordo com a tendências mundial.
Quando uma nova geração de intelectuais chineses se manifesta sobre a situação do país, não o faz só por fazer, está realmente refletindo sobre o futuro do país. E eles não querem que o país se desintegre de jeito nenhum. Desejo de coração que o governo comunista não suspeite de antemão que os intelectuais queiram colocar em questão o seu poder, mas apenas se sentar numa mesa e discutir sobre o futuro do país. Seria muito honrado se o partido comunista iniciasse ele mesmo a democratização.
Às vezes, digo meio de brincadeira aos meus amigos chineses: o partido comunista está no poder há 60 anos e com 60 anos é hora de se aposentar. Se ele se aposentasse agora, sairia de cena com honra, orgulho e brilho (risos).