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Cultura

Ambigüidade dificulta tradução de Machado, diz tradutor alemão

Professor Berthold Zilly fala sobre as dificuldades que teve para transpor para o alemão "Memorial de Aires" e os temas centrais do último romance do escritor brasileiro, que morreu há cem anos.

Capa da edição alemã de 'Memorial de Aires', da editora Friedenauer Presse

Qual o tema central do livro?

Essa resposta não é tão fácil. Há vários aspectos. Poderíamos começar pelo título, que coloca um problema de tradução. Memorial é difícil de traduzir para o alemão. A primeira acepção é a de um monumento. Mas acho que antigamente não era assim. Memorial pode ser qualquer objeto que tem um valor de recordação, inclusive um diário. Acho que o primeiro sentido é esse, de um diário. Essa foi a tradução que eu escolhi.

Machado de Assis: solidão como tema

Aires é um nome que não significa nada em alemão. Também não conheço uma associação em português. Por isso propus "Diário da Despedida" [Tagebuch des Abschieds em alemão]. Esse é um tema central da obra: a despedida.

É preciso ver a época em que se passa a história. É um limiar entre as épocas, os anos de 1888 e 1889. O final da escravidão e do Império. E o início de várias obras de modernização no Rio de Janeiro.

No plano particular, a ação de primeiro plano é a vida privada de algumas pessoas: o protagonista, a irmã dele e o casal Aguiar. São todas pessoas entre 50 e 65 anos, uma idade que naquela época era considerada velhice. Estão aos poucos se preparando para se despedir da vida.

O narrador acaba de se despedir da vida profissional. Ele é um diplomata que se despede do mundo e volta ao Brasil, para desfrutar os últimos anos da vida.

Todas essas pessoas têm amizade com um casal jovem, Tristão e Fidélia. Aí entra um outro tema central da obra: a relação entre as gerações, entre jovens e velhos. Os velhos têm uma grande afeição pelos jovens, principalmente os Aguiar. E essa afeição que os velhos têm pela juventude aproxima os dois jovens, faz com que eles se conheçam e se amem. O resultado desse amor dos velhos pelos jovens é que jovens vão embora: outra despedida.

Como o senhor falou, há também a oposição entre velhice e juventude.

Essa palavra é muito importante: oposição. É um livro construído ao longo de diversas oposições. Entre os bairros, por exemplo. Aí se tem a geografia social e, por trás, os contrastes sociais. De um lado os mais abastados, de outro os criados e escravos. São as oposições sociais.

Há também oposições no espaço, entre o Rio e Petrópolis (onde você está acima das atribulações da vida), entre o Brasil e a Europa. Os jovens saem do Brasil para a Europa e os velhos voltam da Europa para o Brasil.

Há também a oposição entre vivos e mortos.

Sim já no começo, no cemitério, quando se diz que a Rita colocou alguns cabelos pretos dela no caixão do marido morto. Aí se diz que esse cabelo guardou a cor escura e o cabelo cá fora envelheceu. No mundo da morte, as coisas permanecem imutáveis. A Rita envelhece, mas o cabelo que está com o morto não envelhece. A oposição entre o mundo dos mortos e dos vivos é um fio condutor da obra.

Com a Fidélia é a mesma coisa. Ela está quase dilacerada entre duas fidelidades: ao marido morto e a Tristão. Mas no romance, as duas fidelidades não se excluem. O segundo amor pode ser considerado uma continuação do primeiro. É quase uma mensagem: a vida tem seus direitos, mas a morte também.

A palavra morrer, por exemplo, aparece muitas vezes, também no sentido metafórico. Morrer de amores, por exemplo. Em alemão não se usa tanto isso. Mas como a relação entre vida e morte é muito importante no livro, procuro manter, na medida do possível, a identidade de certas palavras recorrentes, mesmo que em alemão soe estranho.

DW.DE

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