Relatório do clima divulgado pela ONU projeta futuro sombrio para a Terra. Em entrevista à DW-WORLD.DE, Carlos Nobre, pesquisador do Inpe e membro do IPCC, fala sobre conseqüências do aquecimento global para a Amazônia.
Carlos Nobre, pesquisador do Inpe e co-autor dos relatórios do IPCC
O resumo de 23 páginas dos três relatórios publicados em 2007 pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresentado neste sábado (17/11) pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em Valência, na Espanha, projeta cenários assustadores para o futuro do Planeta.
O aumento da temperatura da Terra ameaça derreter as geleiras, extinguir espécies de plantas e animais, bem como aumentar a freqüência das secas e a incidência de doenças infecciosas, alerta o documento que servirá de base para as negociações da conferência mundial do clima em Bali, em dezembro próximo.
Um dos 11 autores brasileiros da quarta avaliação do IPCC é Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também já participou dos relatórios de 1999 e 2001. Em entrevista à DW-WORLD.DE, ele fala sobre as conseqüências do aquecimento global para a Amazônia e para outras regiões da América do Sul.
DW.WORLD.DE: Quais são os impactos já comprovados por estudos do Inpe das mudanças climáticas sobre os ecossistemas da Amazônia?
Carlos Nobre: No Brasil, há muito pouca pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas. Para isso, faz-se necessário estabelecer sistemas observacionais sofisticados e de longa duração, isto é, de décadas.
Para comprovar mudanças nos ecossistemas amazônicos seria necessário montar vários sítios observacionais em distintas regiões e monitorar vários parâmetros ecológicos e ambientais dos ecossistemas, como, por exemplo, mudanças na distribuição de espécies da fauna e da flora, mudanças nos parâmetros ambientais de temperatura, regime de chuvas, vazão de rios e igarapés, água no solo, quantidade de biomassa da vegetação, entre muitos outros.
A falta de tal monitoramento de longo prazo praticamente nos impede de afirmar se e quais alterações estão ocorrendo nos ecossistemas. Um outro fator complicador é que há décadas acontece uma alteração de enorme amplitude, isto é, o desmatamento.
Assim, em áreas de ativo desmatamento, fragmentação florestal, exploração madeireira, garimpo, etc., de fato há gigantescas alterações nos ecossistemas, mas a causa é a ação antropogênica direta das mudanças dos usos da terra. Em conclusão, na falta de observações do que está ocorrendo, somente nos resta projetar quais podem ser os impactos futuros, tanto como resposta ao aquecimento global como às mudanças climáticas.
Como esses impactos se refletem em outras regiões ou zonas climáticas da América do Sul?
As mudanças mais significativas das respostas dos biomas na América do Sul a um aquecimento global acima de 3 ºC ocorreriam nos trópicos: tendência à savanização da floresta na Amazônia Oriental, aridização da caatinga no semi-árido, tendendo a vegetação de semi-deserto, substituição da vegetação dos páramos do Altiplano Andino por vegetação de mais baixas latitudes. Fora dos trópicos, nossas projeções indicam a tendência de que a Mata Atlântica se estenda para o sul do Rio Grande do Sul e do Uruguai, se as condições edáficas o permitirem.
Existem muitos mitos envolvendo a função da Amazônia para clima mundial. Qual deles, em sua opinião, ainda precisa ser desmistificado pelos cientistas?
Um novo mito surgiu nos últimos anos. Este reza que as chuvas no Sul – Norte da Argentina, Uruguai, Paraguai e até mesmo no Sudeste do Brasil – dependem crucialmente do vapor d'água que provém da Amazônia e um efeito de um desmatamento de grande escala da Amazônia resultaria em redução total das chuvas nestas regiões, algumas delas correndo o risco de tornarem-se desertos.
De fato, os ventos próximos à superfície sobre a América do Sul tropical a leste dos Andes, na maioria do tempo, sopram da Amazônia para o sul e eles carregam vapor d'água para áreas ao sul da Amazônia. Acontece que a origem ulterior deste vapor d'água é o Oceano Atlântico tropical.
É possível que a floresta tenha um papel importante em reciclar as águas das chuvas através da rápida e efetiva evaporação das árvores. Porém, é um exagero sem comprovação científica e bastante improvável que as chuvas ao sul da Amazônia dimimuam ao ponto de regiões tornarem-se desertos, isto é, com totais anuais de chuvas inferiores a 300 mm (hoje, os totais anuais são superiores a 1.200 mm na maior parte destas regiões, exceto a região do Chaco).
Por que o Brasil, segundo a revista Veja, defendeu no último relatório do IPCC que o desmatamento e as queimadas pesam menos no aquecimento global do que a queima de combustíveis?
Em números redondos, globalmente falando, a queima de combustíveis fósseis responde por cerca de 80% das emissões de gás carbônico e os desmatamentos globais, principalmente concentrados nas florestas tropicais nas últimas décadas, respondem por 15% a 20%. Porém, no Brasil e em outros países tropicais, como, por exemplo, a Indonésia, o padrão de emissões é totalmente diferente. No nosso país, cerca de 70% a 80% das emissões de CO2 originam-se nos desmatamentos da Amazônia e do Cerrado.
Há um grupo de cientistas que discorda dos cenários divulgados pelo painel da ONU. Como o senhor rebateria as três posições seguintes atribuídas aos chamados "céticos":
Há no IPCC espaço para dúvidas ou as projeções divulgadas são unânimes naquele grupo cientistas e políticos? Qual é a confiabilidade dos dados dos relatórios?
Há total espaço para se colocar as incertezas de cada projeção e elas estão todas registradas nos relatórios. O volume completo e o sumário técnico são de total responsabilidade dos cientistas. Somente no sumário para tomadores de decisão é que representantes de governos aprovam linha por linha as conclusões.
Note que o IPCC é cuidadoso em transmitir noção de incerteza. Às vezes diz com 90% de confiança, às vezes diz com 60% e às vezes diz que não há confiança numa projeção, pelo menos com base no conhecimento que foi avaliado naquele momento do tempo. Exemplo, o IPCC não disse que a freqüência ou intensidade dos tornados, ou chuvas de granizo esteja se modificando.