Certificado de reservista de um dos entrevistados
A repatriação se deu por iniciativa do governo brasileiro. Cabia à missão militar brasileira que funcionava em Berlim já a partir de 1945 providenciar a volta ao Brasil dos "brasileiros" residentes na Alemanha que, após a guerra, desejassem retornar. Com a Alemanha totalmente em ruínas, sob ocupação militar estrangeira e sem qualquer perspectiva de oferecer meios de vida a seus habitantes, a maioria dos que haviam sobrevivido ao conflito, bem como suas famílias, optou por retornar.
Depois de consultas e pesquisas a missão militar brasileira ficou sabendo do caráter compulsório do recrutamento para as Forças Armadas Alemãs entre os descendentes. Assim, o comando da missão, de forma acertada, evitou processar judicialmente qualquer indivíduo nascido no Brasil que tivesse combatido pela Alemanha durante a guerra.
Não tiveram problemas no Brasil?
Na volta, a maior dificuldade foi justamente o fato de eles não possuírem o certificado de cumprimento das suas obrigações militares para com as Forças Armadas brasileiras, que até hoje é um pré-requisito para o exercício da maior parte dos direitos civis. O cumprimento de penalidades leves, geralmente uma simples multa, ou o apelo ao já famoso "jeitinho" brasileiro removeram estas dificuldades.
Qual o julgamento que os seus entrevistados têm hoje da Segunda Guerra Mundial e do sistema pelo qual lutaram?
As respostas são dúbias. Alguns admitem que eram jovens, imaturos demais, para avaliarem de forma crítica o regime que, reconhecem, tinha aspectos condenáveis. Outros assumem uma atitude abertamente revisionista, rejeitando a versão dos vencedores da guerra e defendendo tanto as características positivas do regime quanto negando a responsabilidade da Alemanha pela eclosão do conflito.
O senhor acredita que a Segunda Guerra Mundial contribuiu para definir os conceitos de nacionalidade e cidadania no Brasil?
Acredito que sim, mas não só a guerra em si, como também a conjuntura mais ampla na qual ela se insere. Quando o Brasil finalmente entrou em guerra em 1942, a campanha pela nacionalização já estava praticamente concluída. Todas as entidades, organizações e movimentos responsáveis pela divulgação e preservação da língua e da cultura alemã já haviam sido inteiramente destruídos.
Com a declaração de guerra em agosto daquele ano a repressão contra os descendentes de alemães é levada a um novo auge, com incontáveis abusos e mesmo crimes sendo contra eles cometidos. Enfim, ao acabar a guerra, conseguiu-se estabelecer uma situação na qual existiam somente cidadãos "brasileiros" aqui.
Soldados da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial
A guerra acabou há mais de seis décadas e somente agora se realiza o resgate histórico da relação de cidadãos e do governo brasileiros com o nazismo. Existiria um tabu em torno do tema?
Certamente que existiu e existe um enorme tabu que, no limite, alimenta o antigermanismo, ou mesmo a germanofobia. O aparecimento destas memórias, somente agora, guarda uma relação estreita com a conjuntura histórica na qual vivemos, marcada tanto pelo fim da Guerra Fria quanto pela repercussão da Questão Palestina.
Durante a prolongada confrontação entre a antiga URSS e os EUA, incontáveis acusações mútuas foram lançadas por ambos os lados. Destas, uma das mais importantes era a "cumplicidade", "simpatia" ou "similaridade" com o antigo regime nazista.
A caracterização do governo e do povo alemães à época do nazismo como completa e absolutamente diabólicos era, então, amplamente consensual. Esse consenso foi decisivamente reforçado pelo Estado de Israel, sempre arrogando para si a condição de único refúgio possível para os judeus no caso da reaparição de algum governo dedicado ao seu extermínio.
Com o fim da Guerra Fria e o declínio do prestígio do Estado de Israel, resultado de suas políticas para com os palestinos, finalmente parecem ter surgido condições para a aparição das memórias daqueles que viveram e lutaram sob o regime nazista.
O senhor já publicou sua pesquisa?
Até agora a pesquisa foi divulgada exclusivamente no âmbito acadêmico. Apesar de o trabalho ter sido enviado para todas as grandes editoras comerciais do Brasil, nenhuma se dispôs a publicá-lo ou mesmo sequer examinar o seu conteúdo. Espero que a sua divulgação através desta entrevista amplie o leque de parceiros possíveis para uma eventual publicação.
Dennison de Oliveira, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, é professor dos cursos de graduação e pós-graduação no Departamento de História da Universidade Federal do Paraná e orientador de pesquisas na área de História da Secretaria Estadual da Educação do Paraná.