Stuttgart Stammheim, Estação Terminal
A documentação também parece ser o ponto de partida do projeto teatral Estação Terminal Stammheim, recém-lançado pelo Schauspiel Stuttgart, cidade onde estão enterrados os terroristas suicidas.
Claus Peymann, atual diretor do Berliner Ensemble
Em 1977, o teatro municipal de Stuttgart era chefiado pelo diretor Claus Peymann, conhecido por encenar autores de grande irreverência na época. Mas um escândalo ligado à RAF não tardaria a lhe custar o cargo. A história, anedótica até, é ponto de partida de uma peça do coletivo teatral Rimini Protokoll, recém-estreada em Stuttgart.
Peymann afixou no mural do teatro um apelo no qual a mãe de Gudrun Ensslin pedia ajuda financeira para o tratamento dentário de sua filha presa. O jovem diretor Peymann, que contribuíra, ele mesmo, com 100 marcos para a campanha, recebeu logo em seguida centenas de cartas com agressões e ameaças de morte e, algum tempo depois, sua demissão.
Ensaio de 'Amor é mais frio que o Capital', em Stuttgart
O Amor é mais Frio que o Capital é o título da peça que René Pollesch concebeu para o projeto Estação Terminal Stammheim. O diretor e dramaturgo alemão partiu de uma cena do filme Noite de Estréia (Opening Night, 1977), de John Cassavetes, na qual a atriz principal se recusa a ser estapeada, conforme consta do roteiro. Embora não toque diretamente na questão da RAF, Pollesch questiona em sua peça a autenticidade e encenação da revolta.
Lente de aumento da mídia e da arte
E de fato, a repercussão da onda de terrorismo da década de 70 na Alemanha talvez não tivesse atingido a dimensão que atingiu, se a mídia não tivesse contribuído tanto para enfatizar o grau de periculosidade dos terroristas. Há quem acredite que a radicalização das operações da Fração do Exército Vermelho também se deveu ao fato de os ativistas não quererem ficar aquém de sua própria imagem, que se ampliava após cada novo ato de terror.
"Uma grande contribuição para a tragédia dos anos 70 foi prestada pela mídia", opina Hasko Weber, diretor do Schauspiel Stuttgart e mentor da programação de duas semanas sobre a RAF. "Sem o enorme volume de reportagens públicas, que muitas vezes chegavam a fornecer indícios, o medo não teria atingido tal dimensão. Crimes se tornam sensação, e não foi possível dar um passo para trás", declarou o diretor de teatro à imprensa alemã.
'Marca' RAF: sacola da exposição da galeria Kunst-Werke, em 2005
E de fato, ao lado do fato histórico da Fração do Exército Vermelho, a RAF chegou a atingir o status de um ícone pop, o que não deixa de ser controverso até hoje. O último grande debate público sobre esse assunto foi desencadeado por uma exposição realizada pela galeria Kunst-Werke, em Berlim, no início de 2005. Na época, a mostra sobre a representação do terrorismo da RAF na arte foi questionada por não comentar criticamente a aura que o movimento terrorista adquire ao se tornar referência de obras de arte.
Objeto para as artes
Ninguém na Alemanha considera legítima a atuação de um movimento armado que fez diversas vítimas entre a população civil, em nome de uma meta extremista. Matar para impor e manter um sistema político totalitário: disso os alemães já tiveram o suficiente no século passado.
Mas esse tabu parece não desfazer a aura de fascinação por um grupo de jovens dispostos a dar sua vida por uma meta comum – jovens inicialmente "normais", como milhares de outros que tinham os mesmos ideais, mas tomaram rumos diferentes.
Talvez seja essa mistura de repulsa e fascinação que torne a RAF, após a apuração de praticamente todos os detalhes históricos de sua trajetória, um objeto interessante para as artes, capazes de abordar – mais do que a mídia e a historiografia – as ambigüidades de um fenômeno social que continua a intrigar a todos.