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Alemanha

30 anos do Outono Alemão: RAF entre história e encenação

Esgotados os detalhes históricos a serem investigados sobre a atuação da Fração do Exército Vermelho, a história dos terroristas de esquerda na Alemanha ainda é objeto de reflexão da arte.

Fenômeno RAF continua intrigando alemães

Trinta anos após o chamado Outono Alemão – período entre setembro e outubro de 1977 em que as operações da Fração do Exército Vermelho (RAF) atingiram um radicalismo ímpar –, percebe-se que a inquietação em relação ao terrorismo de esquerda ainda não cessou.

Carta em que a RAF comunica oficialmente sua dissolução, em 1998

Enquanto a esquerda já não provoca mais medo a ninguém, o terrorismo volta a povoar de temores o imaginário dos europeus. Mas talvez essa não seja a única razão de a atuação da RAF voltar a ser objeto de reflexão na Alemanha.

Efeito-dominó nas operações do Outono Alemão

Diário francês 'Libération' publica em 8 de outubro de 1977 foto do refém Hanns Martin Schleyer

Em outubro de 1977, a tentativa de libertar os terroristas da chamada primeira geração da RAF fracassa de forma trágica para todos os envolvidos. Nem com o seqüestro do líder empresarial Hanns Martin Schleyer, em 5 de setembro, os ativistas da RAF conseguem pressionar a libertação de seus líderes.

Para reforçar essa causa, a Frente Popular para Libertação da Palestina, solidária à RAF, seqüestra – em 13 de outubro – um avião de passageiros da Lufthansa decolado em Palma de Maiorca, com destino a Frankfurt.

Piloto Jürgen Schumann sentado na porta da cabine no Landshut, em 15 de outubro de 1977, no aeroporto de Dubai, nos Emirados Árabes

Após o assassinato do piloto e uma odisséia por alguns países até a Somália, o avião Landshut é invadido por uma unidade antiterrorista da polícia alemã, em 18 de outubro. A ação policial culminou com o assassinato de três dos quatro seqüestradores e a libertação de 86 reféns.

Gudrun Ensslin e Andreas Baader, em maio de 1977

Na madrugada desse mesmo dia, os líderes da RAF presos na penitenciária de Stuttgart Stammheim – Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Jan-Carl Raspe – suicidam-se. Irmgard Möller sobrevive à tentativa de suicídio.

Reagindo à operação policial de resgate do Landshut, os seqüestradores da RAF assassinam o refém Hanns Martin Schleyer, encontrado morto no Oeste da Alemanha, em 19 de outubro de 1977.

O terrorista mora ao lado

O Outono Alemão designa, no entanto, algo mais que esse encadeamento de eventos, denotando também a intensificação das práticas de controle do Estado e a intensificação da presença policial no cotidiano da população. Esse aspecto, criticado pelos intelectuais e pelos líderes estudantis, dividiu a sociedade na época.

Quem criticasse a restrição das garantias civis em nome do combate ao terrorismo, por mais que fosse contra o uso da violência pelos ativistas de esquerda, podia facilmente cair na suspeita de simpatizar com os terroristas da RAF.

Desenho do primeiro dia do julgamento de Baader e Meinhof, em 1975

Desde então, o diálogo sobre o terrorismo de esquerda na Alemanha nunca deixou de polarizar opiniões. Talvez o aspecto mais assustador da RAF para a sociedade da época e de hoje seja o fato de os ativistas serem cidadãos "normais", de famílias de classe média alta, que de repente se mostraram dispostos a impor através da violência o modelo social com o qual sonhavam.

O perigo de um totalitarismo de esquerda na Alemanha se dissolveu inteiramente com o fim da Alemanha Oriental e com o descrédito da ditadura socialista, cujos crimes passaram a ser apurados após a reunificação do país. Diante da atual ameaça do terrorismo islâmico, no entanto, alguns fantasmas retornam.

Por um lado, os atentados islâmicos mais graves ocorridos recentemente na Europa foram cometidos por cidadãos europeus e não por extremistas de fora do continente, como muitos prefeririam acreditar. Por outro lado, a tendência de se criar um Estado de vigilância em nome do combate ao terrorismo volta a gerar grande controvérsia na Alemanha.

A polícia sabia do plano de suicídio?

Analogamente ao processo de elaboração de outros capítulos graves da sua história, como o nazismo e a ditadura socialista, também no caso da RAF os alemães apostam na investigação documental como forma confiável de reflexão sobre o passado.

Penitenciária de Stuttgart-Stammheim

DW.DE

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