Mostra de 100 dias em Kassel chega ao fim, contabilizando número recorde de visitantes e avalanche de ataques da mídia. Diretor artístico reage de forma exagerada e afirma estar feliz por incomodar.
Noack e Buergel: menos sorrisos que há 100 dias atrás
Os jornais alemães (nacionais e regionais), as revistas especializadas e os correspondentes dos periódicos estrangeiros enviados a Kassel foram quase unânimes ao destruir a 12ª documenta como uma mostra "sem conceito", que mistura alhos com bugalhos e mais parece "uma Oktoberfest sem cerveja".
Caráter de feira
Em meio à série de polêmicas, houve até quem questionasse o modelo documenta, afirmando que o mercado hoje fala mais alto e que as enormes feiras de arte são até mais significativas.
"Quando se abdica de critérios, que é o que a documenta fez, então se pode pensar nas feiras realmente como uma plataforma mais adequada para a arte do que as mostras de grande porte, que acabam sendo mais importantes para o marketing e o turismo das cidades onde acontecem do que para a própria arte", alfineta em entrevista ao diário Kölnische Rundschau Klaus Honnef, que participou da curadoria de duas documentas (1972 e 1977).
O veredicto de que até as feiras são mais consistentes que sua documenta é uma ironia do destino para o diretor artístico Roger M. Buergel, cujo discurso pregava exatamente a distância do mercado e o "não" aos nomes conhecidos do establishment. Porém, a estratégia de expor obras de artistas "que ninguém conhece" foi, ao contrário, interpretada por parte da crítica como truque publicitário para causar sensacionalismo.
Teste para macacos e papagaios
'And...,' da indiana Sheela Gowda
A falta de consistência da mostra foi vista pela mídia no "excesso de encenação" (taz) e nas "comparações formalistas, que podem até talvez testar a inteligência de macacos ou papagaios, mas são fatais como critérios de processos criativos" (Süddeutsche Zeitung). Nos questionamentos às associações formais consideradas forçadas, a "migração da forma" como fio temático é entendida como mero rótulo adotado para esconder a falta de coerência.
"Eles [Roger M. Buergel e Ruth Noack] acreditam estar, com isso e com outros paralelos anacrônicos e traçados às pressas, contribuindo para uma compreensão mais profunda da arte. Na verdade, misturam não apenas épocas e situações que carecem de uma separação acurada, mas também negam todos os pressupostos técnicos de cada objeto e, o que é imperdoável, toda forma de individualidade", critica o jornal de Munique.
Indiferença e opressão
Papoulas exuberantes: momento raro
Entre os adjetivos que desqualificaram a mostra de Buergel estão "catastrófica" (New York Times) e "presa a uma atmosfera de indiferença e opressão" (Frankfurter Rundschau) – observação pertinente ao Aue-Pavillon, estufa (semelhante às das feiras) onde se amontoaram obras de arte para desespero do visitante e desrespeito aos artistas que só tiveram suas obras ali expostas.
O dedo em riste em direção à curadoria veio ainda no registro incessante das papoulas que não floresceram como esperado na obra da artista Sanja Ivekovic, do arrozal que não cresceu do tailandês Sakarin Krue-On, da escultura Template do chinês Ai Weiwei, que desmoronou em dia de mau tempo. Foram as "pequenas catástrofes naturais" oferecidas de bandeja para a mídia ferina, observa o próprio Buergel em entrevista ao Hannoversche Allgemeine Zeitung.
Perda da inocência
'Deep Play', de Harun Farocki