O seqüestro de Hanns Martin Schleyer por integrantes da RAF em 5 de setembro de 1977 dava início aos 44 dias de terror que ficaram conhecidos como o "Outono Alemão", auge da luta entre o terrorismo e o Estado alemão.
Comitiva de Schleyer foi atacada em Colônia: quatro pessoas morreram
O início do período que ficou conhecido como "Outono Alemão" completa 30 anos nesta quarta-feira. No dia 5 de setembro de 1977, o grupo terrorista de esquerda Fração do Exército Vermelho (RAF) seqüestrou Hanns Martin Schleyer, então presidente da Confederação da Indústria Alemã e da Confederação das Associações de Empregadores Alemães.
Em Colônia, o comando Siegfried Hausner, da RAF, atacou a comitiva de carros de Schleyer e o levou como refém. Seus três guarda-costas e o motorista morreram no tiroteio.
"Preso há 31 dias", diz placa nas mãos de Schleyer
A imagem que ainda assombra a Alemanha é a de um homem de bochechas caídas, olhar apático, olheiras. Foi segurando uma placa com os dizeres "prisioneiro da RAF" que Schleyer foi retratado pela imprensa do país. O cativeiro durou 44 dias e terminou de forma trágica: no dia 19 de outubro daquele ano, Schleyer foi encontrado com três tiros na cabeça dentro do porta-malas de um carro abandonado em Mulhouse, na França, perto da fronteira alemã.
Moeda de troca
Para a RAF, deter um ícone do capitalismo alemão significava grande poder de barganha. Em troca da libertação de Schleyer, o grupo queria soltar 11 prisioneiros. Desde 1972, a geração de fundadores do grupo extremista estava detida na penitenciária de Stuttgart-Stammheim, tida como a mais segura da Alemanha. Mas Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, presos por terem perpetrado diversos atentados a bomba e incêndios a partir de 1968, continuavam liderando a luta armada da RAF a partir de suas celas.
Do lado de fora, formou-se uma segunda geração de extremistas, mais distante dos anseios políticos do movimento original. Em vez da luta contra o capitalismo, a injustiça mundial e a condenação do passado nazista alemão – preceitos derivados do movimento estudantil de 1968 – , a RAF queria agora libertar seus líderes. O objetivo era o "Big Raushole" ("grande retirada") dos dirigentes encarcerados.
"Sem chance para o terrorismo"
O "Outono Alemão" foi o ápice da guerra entre os terroristas da RAF e o governo alemão. Além do seqüestro de Schleyer, a RAF marcou 1977 com o assassinato de Siegfried Buback, procurador-geral da Alemanha, e de Jürgen Ponto, presidente do Dresdner Bank. Foi o ano mais sangrento da organização.
Temendo uma escalada do terror com a libertação dos líderes da RAF em troca da liberdade de Schleyer, o então chanceler alemão Helmut Schmidt não cedeu à pressão do grupo. Quatro horas após o seqüestro de Schleyer, Schmidt disse em rede nacional de televisão: "Aos responsáveis que me ouvem: eles podem estar certos do triunfo e do poder que têm em mãos. Mas não se iludam: o terrorismo não tem chance no longo prazo."
Em resposta ao seqüestro, governo e Departamento Federal de Investigações elaboraram uma lei – prontamente aprovada pelo Parlamento – que proibia completamente o contato entre os prisioneiros da RAF em Stammheim. Todas as conversas dos prisioneiros com os advogados também foram vetadas. O governo desconfiava de que o seqüestro de Schleyer havia sido planejado de dentro das celas.
O Departamento Federal de Investigações iniciou uma busca sem precedentes na história da Alemanha: milhares de residências foram vasculhadas para localizar o cativeiro. Milhões de folhetos com a foto de Schleyer foram jogadas de aviões. Até mesmo gravações com a voz dos seqüestradores foram tornadas públicas.
Na ocasião, a opinião pública chegou a debater a possibilidade de reintroduzir a pena de morte no país e mesmo de matar prisioneiros da RAF para colocar os terroristas sob pressão. Mas os seqüestradores insistiram nas suas reivindicações e os investigadores falharam nas suas tentativas de encontrar o cativeiro.
Apoio do terrorismo internacional
Schleyer ainda estava vivo no dia 13 de outubro de 1977, quando quatro terroristas palestinos que apoiavam a RAF na luta armada internacional seqüestraram um Boeing 737 da Lufthansa com 87 pessoas a bordo. Cinco dias depois, o dramático vôo da "Landshut" terminou em Mogadíscio, capital da Somália, após escalas em Roma, Chipre, Bahrein e Dubai. Uma unidade especial da Polícia Federal alemã invadiu a aeronave e libertou os reféns. O piloto havia sido executado pelos seqüestradores. Três deles morreram baleados e a quarta terrorista palestina – uma mulher – ficou gravemente ferida.
O Boeing 737 "Landshut", da Lufthansa, em Mogadíscio, Somália
Os líderes da RAF presos em Stammheim ouviram a notícia sobre o final do seqüestro. Na mesma noite, em 18 de outubro de 1977, Baader e Raspe se mataram em suas celas com armas contrabandeadas para dentro da prisão. Ensslin se enforcou com um cabo elétrico.
No dia seguinte, o comando Siegfried Hausner afirmou em comunicado à agência dpa: "Após 43 dias, acabamos com a existência corrupta e patética de Hanns Martin Schleyer. (…) A luta apenas começou. Liberdade por meio da luta armada antiimperialista." Em 28 anos de luta armada, os extremistas mataram 34 pessoas. A organização se dissolveu em 1998.
O corpo de Schleyer foi encontrado no mesmo dia, 19 de outubro de 1977, no porta-malas de um carro na França. Até hoje, os cúmplices ainda vivos do seqüestro mantêm segredo sobre a identidade do assassino.
Christian Klar e Brigitte Mohnhaupt, ex-integrantes do grupo terrorista Fração do Exército Vermelho (RAF).
Trinta anos depois, o "Outono Alemão" ainda é motivo de controvérsias. Em março deste ano, a Justiça alemã soltou Brigitte Mohnhaupt, ex-dirigente do grupo de extrema esquerda. Mohnhaupt esteve presa por 24 anos por ligação com o seqüestro de Schleyer. Em maio, o presidente Horst Köhler negou o pedido de indulto do ex-terrorista Christian Klar, também cúmplice do seqüestro e assassinato de Schleyer. Klar, condenado à prisão perpétua, está preso desde 1982.