Em que favelas você já atuou?
Jáuregui transformou a urbanização da favela em obra de arte
Eu já fiz 25 favelas no Rio de Janeiro. Desde a primeira, Fernão Cardim, em 1994, depois Salgueiro, Vidigal, Rio das Pedras. Hoje, estão muito maltratadas e eu nem vou visitar. O poder público que as construiu não colocou nenhum tostão em sua manutenção. A população da favela não tem meios econômicos para sua manutenção. O dinheiro que têm é para manter sua precária residência e para comer, obviamente. É função do poder público garantir que o bem público seja bem conservado.
Como você vê a função dos novos edifícios que projeta para as favelas?
O projeto urbano busca articular a diferença entre o formal da cidade e o informal da favela. É a função de cada edifício que introduzimos, como os edifícios habitacionais para a relocalização de pessoas retiradas para se abrir ruas. Quando você introduz um novo edifício, cria-se um novo espaço de convivência e uma nova porta de entrada para o morro. Cada edifício introduzido funciona como um monumento, porque tem a função de representar a dimensão pública dentro do privado.
Na favela, há de tudo, menos o público. Tudo é privado e o que não é privado, não é de ninguém. A rua é para jogar o lixo e eu posso avançar e construir como quiser.
Mas a Quadra do Salgueiro não é um espaço público?
Espaços interiorizados, mas não públicos
Sim, mas é um espaço interiorizado. Na favela, não há o conceito de espaço público. Existem pontos onde está o baile funk, a escola de samba, a escola, etc. que não constituem parte de um território que se pode chamar espaço público. Espaço público é um contínuo que permite várias atividades. Isto está bem claro na planta do Salgueiro, onde o coração da vida comunitária era tomado pelos traficantes, porque o poder público não chegava aqui, nem lixo, nem ambulância, nem a polícia.
Com a extensão da rua, a acessibilidade e a formalização deste espaço com atividades esportivas, culturais, comerciais, isto se transforma e se abre para a chegada da cidade formal, articulando a comunidade com a cidade e tornando este lugar acessível, aberto para outras possibilidades de vida.
Não há resistência contra tais projetos por parte dos traficantes?
A população sempre quer melhorias, urbanização. Os traficantes são uma força paralela que não quer que este lugar seja acessível, mas que também não pode ser opor à comunidade. É uma luta de poder entre os traficantes e a comunidade.
Como você estuda a favela antes de intervir?
Escadarias confortáveis, incluindo o verde
O ponto de partida é a leitura da estrutura do que já está lá, reconhecendo os locais onde as pessoas se encontram ou um lugar que tem potencial para se transformar em praça, onde há serviços importantes como o núcleo da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), já que o lixo é um problema gravíssimo a ser resolvido, junto com as novas vias de circulação para veículos, e senão para veículos, pelo menos para pessoas em escadarias agradáveis, bem dimensionadas, incluindo o verde.
Como em uma cidade grega ou italiana, onde não há circulação de carros, mas é muito agradável andar pela escadaria com uma paisagem maravilhosa como a do Rio de Janeiro.
Sua forma de lidar com a favela lembra a intervenção de Brunelleschi, em Florença, ao introduzir a cúpula da catedral em um tecido medieval dando início ao Renascimento?
Os novos edifícios articulam a favela com a cidade
Sim, é possível estabelecer este paralelo. O que é o monumento? É aquilo que a comunidade define como sua máxima representação, como síntese de sua condição de vida conjunta. É aquilo que tem a presença simbólica e material na mesma coisa, símbolo e matéria juntos. Na favela, qualquer edifício que introduzimos, mesmos pequenas intervenções como banheiros e vestiários comunitários junto a um campo de futebol, tudo se transforma em monumento. Por quê?
Porque é feito pelo poder público, em nome do poder público. Quando ganho um concurso, eu sou a mão que viabiliza a intervenção do público no privado. O gesto do projeto é de absoluta responsabilidade, porque vai introduzir um monumento em um lugar que vai representar o poder público. Mesmo muito pequenininho, um quiosque, um abrigo de ônibus, não é qualquer edifício, isto já é um monumento.
O que você quer dizer quando escreve "Sublinhar a dignidade do público, cenário aberto à vida civil. Fundamento igualitário da democracia. Dignidade representativa, condição coletiva e solene"?
Isto é que é um projeto de intervenção urbana em uma comunidade carente, em uma favela, mas não só nela.
E isto é arte?
Isto tem a ver com arte, sem dúvida. Isto é uma forma de entender a arte e eu estou, realmente, muito feliz de que a favela tenha ganho um lugar numa exposição de arte internacional.