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Cultura

Kassel e funk carioca: Dias e Riedweg na "documenta"

Quais são as questões que a arte deve investigar nos dias de hoje?

A arte deve servir de plataforma de reflexão sobre a vida, sobre as maneiras como a gente se relaciona uns com os outros e com o espaço onde vivemos. No nosso trabalho, as questões abordadas não são, ao contrário do que muitos pensam, sociais. São questões humanas, que não dependem da situação geográfica.

A imigração, por exemplo, que é um dos nossos temas principais, pertence tanto ao terreno da subjetividade quanto ao terreno da política. Se o problema da imigração for visto de uma forma ligada ao Estado, à defesa de território, ele se torna, de fato, um problema sociopolítico.

Mas se a imigração for encarada como um direito de se locomover no espaço, que é um direito e um desejo que todo ser humano tem, chega-se a um nível subjetivo de questionamento. Muita gente emigra, simplesmente porque quer mudar de espaço. E a maneira como isso é regrado, através do passaporte, é vista como uma questão geográfica, mas hoje em dia é puramente econômica.

A documenta 12 pretende investigar três questões: "O que é a vida nua?" , "A modernidade é o nosso passado?" , "O que deve ser feito?". Dentre essas, qual (ou quais) vocês acreditam investigar no trabalho que preparam para o museu de 100 dias?

Foram o Roger Buergel e a Ruth Noack que escolheram o Voracidade Máxima, não sei com que questão em mente. Intuitivamente a gente diria que é um trabalho que focaliza a pergunta que leva em conta a questão da vida nua, da violência da vida, e como a gente se relaciona com isso. O Voracidade Máxima fala diretamente das possíveis relações que existem entre sexualidade e economia. E isso fica claro naquela cama, é na cama que acontece esse encontro, na prostituição.

'Vida nua' em Funk Staden: do século 16 ao mundo globalizado

No Funk Staden, as três questões estão, de alguma forma, abordadas. A gente pega a modernidade tendo o século 16 como origem, que é a época do mercantilismo, das expansões marítimas, o berço da atual globalização.

A questão da vida nua também está lá, porque a mesma violência que existia no ato canibal da antropofagia dos índios, existiu no processo de colonização, e existe na maneira como os funkeiros são marginalizados socialmente e culturalmente.

O grito de dor, o grito guerreiro do índio, não deixa de ser o grito do funkeiro que maldiz a sociedade, a polícia e as relações sociais. O Rio de Janeiro é apenas um singelo retrato da perversidade que existe no capitalismo globalizado atual. O problema é inerente à nossa época.

Por último, "o que fazer agora" está na postura dessa documenta, que é a de propor o diálogo e trazer trabalhos que proponham diálogos, servindo muito mais como plataforma para pensar a situação atual do que como uma plataforma crítica de estéticas e formalismos.

dw.de