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Cultura

Kassel e funk carioca: Dias e Riedweg na "documenta"

Maurício Dias e Walter Riedweg falam à DW-WORLD sobre suas investigações e propostas estéticas, que vão desde a discussão das relações de alteridade até a antítese documentário x ficção.

Uso de máscaras nas entrevistas: 'Voracidade Máxima'

Além de autores, vocês, muitas vezes, são personagens dos vídeos que produzem. De que forma essa intervenção influencia nos resultados? Quais os objetivos de investigação que impulsionam essa intervenção?

De alguma forma, o que a gente faz são relatos do encontro com o outro. A gente sempre procura personagens e pessoas que sejam diferentes da gente. E não necessariamente esses outros são personagens e nós criadores. Para que o diálogo que queremos estabelecer seja construído de forma um pouco mais verdadeira, é importante que a gente diga quem a gente é. Isso porque o trabalho não é sobre o outro, mas sobre as relações que nós todos temos uns com os outros.

Em alguns dos vídeos, isso chega ao ponto extremo de a gente participar visualmente do trabalho, como é o caso de uma das peças mostrada na documenta, que se chama Voracidade Máxima. Esse trabalho foi feito em 2003, em Barcelona, com os jovens que, no Brasil, são chamados michês.

Eles precisavam esconder a identidade, porque todos são imigrantes ilegais, além de a própria prostituição ser ilegal e de o segredo ser extremamente importante nessa prática – as pessoas que se prostituem e sobretudo as que pagam por um prostituído ou uma prostituta querem segredo.

A situação trouxe a necessidade de se colocar máscaras. Como era a gente que ia conduzir as conversas que construíram formalmente o trabalho, fizemos máscaras de látex com a nossa cara, para eles colocarem durante a entrevista.

Quando eu [Maurício Dias] faço a entrevista no vídeo, aparecem eu e um michê, que está usando uma máscara de látex que reproduz meu rosto. Quando é o Walter que faz a entrevista, o michê está com uma máscara de látex com o rosto dele.

As entrevistas com esses gigolôs da prostituição masculina gay são feitas na cama: a gente aparece sem camisa, só com uma toalha, como se estivéssemos num hotel. A instalação reproduz o ambiente : há uma cama com um lençol azul, exatamente como é o cenário onde o vídeo foi feito, com duas grandes projeções e dois grandes espelhos, adicionando o espectador àquelas imagens.

Com as máscaras e o cenário, a gente criou a mesma identidade visual para o entrevistado e o entrevistador – para o artista, e para o prostituto. A instalação cria um jogo de sedução e confusão para falar de uma coisa que é real. O vídeo acaba ficando com um aspecto de documentário ficcional. Um ambiente foi criado para falar de questões delicadas de uma realidade que todos conhecem.

O QG atual da dupla é o Rio de Janeiro. Como a cidade instigou o trabalho de vocês?

No ano de 1999, fomos morar no Rio porque íamos participar da 24ª Bienal de São Paulo. Hoje a gente vive lá, no bairro de Santa Tereza, que é um bairro cercado por seis favelas. Cerca de 25% da população desse bairro é favelada, então a relação de alteridade, que a gente investiga no nosso trabalho, está no dia-a-dia, na convivência com as pessoas da favela.

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DW.DE

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