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Cultura

Kassel e funk carioca: Dias e Riedweg na "documenta"

Além de autores, vocês, muitas vezes, são personagens dos vídeos que produzem. De que forma essa intervenção influencia nos resultados? Quais os objetivos de investigação que impulsionam essa intervenção?

De alguma forma, o que a gente faz são relatos do encontro com o outro. A gente sempre procura personagens e pessoas que sejam diferentes da gente. E não necessariamente esses outros são personagens e nós criadores. Para que o diálogo que queremos estabelecer seja construído de forma um pouco mais verdadeira, é importante que a gente diga quem a gente é. Isso porque o trabalho não é sobre o outro, mas sobre as relações que nós todos temos uns com os outros.

Em alguns dos vídeos, isso chega ao ponto extremo de a gente participar visualmente do trabalho, como é o caso de uma das peças mostrada na documenta, que se chama Voracidade Máxima. Esse trabalho foi feito em 2003, em Barcelona, com os jovens que, no Brasil, são chamados michês.

Eles precisavam esconder a identidade, porque todos são imigrantes ilegais, além de a própria prostituição ser ilegal e de o segredo ser extremamente importante nessa prática – as pessoas que se prostituem e sobretudo as que pagam por um prostituído ou uma prostituta querem segredo.

A situação trouxe a necessidade de se colocar máscaras. Como era a gente que ia conduzir as conversas que construíram formalmente o trabalho, fizemos máscaras de látex com a nossa cara, para eles colocarem durante a entrevista.

Quando eu [Maurício Dias] faço a entrevista no vídeo, aparecem eu e um michê, que está usando uma máscara de látex que reproduz meu rosto. Quando é o Walter que faz a entrevista, o michê está com uma máscara de látex com o rosto dele.

As entrevistas com esses gigolôs da prostituição masculina gay são feitas na cama: a gente aparece sem camisa, só com uma toalha, como se estivéssemos num hotel. A instalação reproduz o ambiente : há uma cama com um lençol azul, exatamente como é o cenário onde o vídeo foi feito, com duas grandes projeções e dois grandes espelhos, adicionando o espectador àquelas imagens.

Com as máscaras e o cenário, a gente criou a mesma identidade visual para o entrevistado e o entrevistador – para o artista, e para o prostituto. A instalação cria um jogo de sedução e confusão para falar de uma coisa que é real. O vídeo acaba ficando com um aspecto de documentário ficcional. Um ambiente foi criado para falar de questões delicadas de uma realidade que todos conhecem.

O QG atual da dupla é o Rio de Janeiro. Como a cidade instigou o trabalho de vocês?

No ano de 1999, fomos morar no Rio porque íamos participar da 24ª Bienal de São Paulo. Hoje a gente vive lá, no bairro de Santa Tereza, que é um bairro cercado por seis favelas. Cerca de 25% da população desse bairro é favelada, então a relação de alteridade, que a gente investiga no nosso trabalho, está no dia-a-dia, na convivência com as pessoas da favela.

'Funk Staden': encontro entre Rio de Janeiro e Kassel

No Rio, não tem como evitar isso. A cultura da favela, ao contrário do que muita gente pensa, é enorme, super interessante e super contemporânea. O samba é uma coisa maravilhosa e o funk também é outro que a gente aprendeu a apreciar. Acabamos entrando de cabeça no universo do funk para o trabalho feito especialmente para a documenta.

Para a documenta 12, um trabalho que relaciona o relato de Hans Staden sobre o Brasil com o movimento funk carioca está sendo preparado por vocês. Quais as relações entre os dois focos?

O nome do trabalho é Funk Staden. Se o funk é a parte carioca, o Staden é a parte de Kassel. Funk Staden reconta o 28º capítulo do livro Wahrhaftige Historia, escrito por Hans Staden, que é um cidadão de Kassel.

Hans Staden nasceu em um vilarejo, em um subúrbio de Kassel, que se chama Homberg , e morreu em Wolfhagen, outro vilarejo suburbano de Kassel. Quando a gente chegou a Kassel para pesquisar o que fazer aqui para a documenta, foi na História que a gente encontrou nosso mote. Mais especificamente em 1557, ano em que o livro Wahrhaftige Historia foi escrito em Kassel.

Esse livro reúne os primeiros registros literários que foram feitos sobre o Brasil. Nele, Hans Staden conta sua aventura de quando sai de Kassel e vai para o Brasil, onde é capturado pelos índios tupinambás – os índios da costa entre Rio e São Paulo.

Esses índios eram antropófagos: acreditavam que, na medida em que comessem a carne do inimigo, absorveriam a sua bravura. Enfim, também trabalhavam de alguma forma com a alteridade. Hans Staden não foi considerado um homem bravo e corajoso pelos nossos índios tupinambás e, por isso, foi poupado.

Ao se liberar, voltou pra Europa e escreveu em Kassel, o Wahrhaftige Historia, que se tornou um dos primeiros best-sellers da história da literatura européia. Até o fim do século 18, esse livro já tinha sido traduzido para 40 idiomas e circulado pela Europa inteira. Através do Wahrhaftige Historia, criou-se um mito do selvagem dos trópicos e ficou legitimada toda a violência do processo de colonização.

No capítulo 28, Hans Staden conta como os tupinambás celebravam e decoravam o inimigo, antes de matar com um certo instrumento chamado ivirapema. Conta como as índias comiam os brancos inimigos, como fritavam o cérebro, comiam a carne humana.

Nosso trabalho reconta esse capítulo, revisitando a questão da percepção sobre a cultura do outro na história. Para isso, a gente fez um ivirapema nosso. Um bastão como o dos índios, sendo que na ponta, em vez lanças e chocalhos, a gente tinha três câmeras de vídeo. Fomos para os bailes funk das favelas cariocas durante um ano, filmando tudo com esse bastão.

Os funkeiros dançam com o bastão na mão e, ao mesmo tempo, filmam o baile. O Funk Staden é um tríptico de vídeos, em que você vê o capítulo 28, de Hans Staden, recontado a partir do universo funk carioca contemporâneo. É a videoinstalação que abre o Schloss Wilhelmshöhe, onde estão os trabalhos que lidam de alguma forma com a História e com a cidade de Kassel.

Clique para ler o final da entrevista com Maurício Dias e Walter Riedweg!

dw.de