Chapas de policarbonato flutuam presas à fachada do Fridericianum
Assim como as suas instalações pretendem desconstruir idéias e certezas que temos em relação ao lugar que ocupamos no espaço e a nossa forma de lidar com ele, há uma parte (final) do trabalho apresentado na documenta 12, que desconstrói toda a obra – segundo a sua palestra na Universidade de Kassel.É papel da arte e do artista contemporâneo desconstruir?
Acho que a palavra desconstrução ficou muito sobrecarregada de significado. O que entendo é o seguinte: há uma proposta estética realizada em determinado espaço arquitetônico e público que oferece ao espectador – e ao próprio artista que a realiza – a condição de investigar outras possibilidades espaciais, outras percepções do próprio olhar e do próprio corpo, em relação àquele espaço. Quanto melhor o projeto arquitetônico, melhor para o trabalho.
Não há a idéia de desconstruir para demolir, a idéia é de repropor. Propor uma outra organização espacial que mostre a pluralidade de realidades estéticas passíveis de serem organizadas num determinado espaço. O meu trabalho busca abrir novas possibilidades para o olhar e para a percepção corpórea e não simplesmente desconstruir. A inclusão de uma nova realidade pode até ser encarada como desconstrução, mas o que se quer é construir uma outra instância espacial estética.
Em uma reportagem do Globo, você fala que o trabalho pretende tratar de leveza, transparência e luminosidade como uma outra forma de ver o mundo, mostrando que o mundo tem uma dinâmica suave. Onde está essa dinâmica suave de hoje? A arte deve tensionar as questões primeiras ou suavizá-las?
Acho que a arte pode fazer aquilo que ela quiser e é bom que o faça.
Ao observar a vitalidade do Oscar Niemeyer, por exemplo, com quase 100 anos e 27 projetos internacionais em andamento no seu escritório, eu pergunto: de onde vem esse vigor? De onde vem a leveza dessas construções? De onde vem, como ele mesmo diz, enxergar primeiro um projeto para depois verificar a viabilidade? E ele sempre encontra uma viabilidade técnica para as suas propostas arquitetônicas, que são lindamente elaboradas.
Como posso dizer que não existe leveza, se ela é materializada nessas linguagens? – Da mesma forma que é materializada em várias linguagens musicais no mundo inteiro, da mesma forma que é materializada na presença de pessoas que, de maneira discreta, anônima, percorrem as ruas da cidade onde eu moro, sustentando a dor das pessoas que não têm onde ficar e o que comer. Como é que eu vou dizer que não existe a leveza do ser? É lógico que tem.
Mais do que isso: acredito que a leveza vinga e cada vez se espalhará mais. Porque ela se apresenta no bojo cultural das pessoas que são, inclusive, extremamente politizadas como o Niemeyer. A suavidade não está vinculada a uma alienação política, absolutamente. Ela se instala no campo público e cultural para testemunhar e para quem quiser observar que é possível buscar outra maneira de viver.
A documenta 12 pretende investigar três questões: "O que é a vida nua?", "A modernidade é o nosso passado?", "O que deve ser feito?". Dentre essas, qual (ou quais) vocês acreditam investigar com o que está sendo preparado para o "museu de 100 dias"? Quais são as questões que a arte deve investigar nos dias de hoje?
Eu não sei se o trabalho responde diretamente a alguma dessas questões. É uma ponderação que eu gostaria de ouvir da Ruth e do Roger [a curadora Ruth Noack e o diretor artístico Roger Buergel]. A relação com a educação estética, proposta pela curadoria, é, sem dúvida, a questão que mais me interessa.
Acho que essa possibilidade de um outro entendimento do campo educacional que a arte pode propiciar a todos é uma questão extremamente estimulante. E acho muito interessante que a Ruth e o Roger tenham colocado isso como um dos conceitos que direcionam o trabalho da documenta.