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Cultura

Equilíbrio, leveza e translucidez: Iole de Freitas na "documenta"

Iole de Freitas fala aos alunos de Belas Artes da Universidade de Kassel

Os materiais translúcidos, que se mostram rígidos, mas remetem à leveza e à flexibilidade, têm marcado forte presença nos últimos trabalhos, muitas vezes ligados à arquitetura do local.

O meu trabalho prevê não só o deslocamento do espectador no espaço por indução da obra, mas também cria novas instâncias nos ambientes. São a luz, a transparência e a translucidez que geram tensões nos espaços, não o aço e o policarbonato. O trabalho com as placas de policarbonato também questiona os limites do equilíbrio de um corpo no espaço, seja o equilíbrio de um corpo de 200 quilos ou de duas chapas que se apóiam uma na outra de maneira improvável ao senso comum, seja o equilíbrio das chapas de nove metros suspensas no espaço externo a uma altura de 12 metros. Ou ainda o equilíbrio do corpo do espectador se deslocando no espaço.

Não considero essas placas rígidas. Elas possibilitam torções e curvaturas além do que se imagina. Para fazer isso com placas de um material plástico normalmente usado de maneira plana, reta e rígida, são necessários muitos cálculos e muita capacidade intuitiva. Mas o trabalho mostra que isso é possível. Foi assim que consegui construir um lugar que une leveza, luminosidade, dinâmica e acolhimento, além de permitir que o espectador investigue sua própria percepção visual.

De que forma a arte povera ainda se manisfesta nas suas instalações?

Acredito que o olhar de um artista interessado em estruturar a própria linguagem estética é bastante atento para poder arquivar o que corresponde às suas investigações e perceber a qualidade do que é apresentado à sua volta. É claro que houve uma sincronia que me influenciou. Mas não foi só a arte povera, que florescia vigorosamente quando comecei a apresentar meus primeiros trabalhos nas galerias de Milão, da Suíça e da Alemanha. Também havia as experiências em body art e os experimentos ligados à linguagem fotográfica.

No trabalho desenvolvido atualmente, talvez seja possível encontrar uma relação com a estrutura da linguagem da arte povera, na medida em que o processo e a matéria se apresentam na obra de maneira muito evidente.

A primeira fase de seu trabalho como artista plástica foi na Itália. Nos anos 1980, você resolveu retornar ao Brasil. Por quê? Quais as diferenças de trabalhar nos dois países? Por que você manteve o Brasil como seu local de trabalho?

Não voltei por questões profissionais e tive que enfrentar, então, a realidade que se apresentou a mim. Por um lado, a volta foi um desafio. Depois de ter um trabalho já encaminhado, se estruturando na Europa, com uma possibilidade de difusão muito maior, com textos críticos feitos por Vittorio Fagune e por tantos outros críticos da época, participando de grandes exposições coletivas em grandes museus, como o Frankfurter Kunstverein, decidir voltar significava me retirar fisicamente do campo de maior difusão do que eu estava produzindo.

Por outro lado, o Brasil ampliou a possibilidade de investigação do trabalho, que foi se afastando do registro bidimensional da foto e do filme – apesar de existirem, já nas propostas anteriores, situações de instalação durante a exposição das obras, dos filmes, das seqüências fotográficas.

No Brasil, respira-se um ar de experiências arquitetônicas muito vigorosas, desde o barroco, tão presente nas pequenas cidades de Minas Gerais, onde nasci, até as ocorrências magníficas de Oscar Niemeyer, os projetos de Paulo Mendes da Rocha e tantos outros excelentes arquitetos brasileiros. Juntamente com a possibilidade de fruir dessas grandes obras veio o estímulo da convivência com artistas contemporâneos da minha geração. José Resende, Waltércio Caldas, Tunga, entre outros, também mostravam grande acuidade na experiência com os materiais.

O Brasil trouxe um campo fértil para as investigações estéticas que eu vinha fazendo, apesar das dificuldades de inserção internacional quando se trabalha com arte num país do Terceiro Mundo.

Clique para ler o final da entrevista com Iole de Freitas.

dw.de