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Cultura

"Você gostaria de participar de uma experiência artística?"

Uma crítica feita [pelo ensaísta Victor da Rosa] no Brasil ao NBP é a de que ele se resumiria a "entretenimento para especialistas", sem gerar interatividade real ou tensão, sem quebrar ordens ou hierarquias, sem diluir genuinamente a autoria da obra. Como parte integrante da documenta, o NBP se afirmaria, mais do que nunca, como "entretenimento para especialistas" por excelência?

Não, de maneira alguma! Acredito que a obra de arte tenha uma vocação "pública", no sentido de ser lançada diretamente e sem rodeios em direção à alteridade, em toda a sua potência – o espaço de fruição da obra é necessariamente coletivo e generoso, aberto aos encontros e desencontros próprios da vida e da existência.

Isto vai em direção contrária à postulação da obra de arte enquanto apenas "entretenimento" e "diversão" – sem dúvida, a visão dominante no circuito da cultura comercial e do consumo. Aqueles que acusam a arte contemporânea de "entretenimento para especialistas" na verdade se recusam ao embate direto com esta obra de arte e com o corpo de questões trazido por ela, preferindo o conforto da nostalgia por um tempo de uma "beleza dócil e sem conflitos". É exatamente em direção contrária – apontando para uma coletivização do conhecimento e para a produção de um pensamento aberto e coletivo – que aponta o projeto NBP e outras ações instigantes da arte contemporânea.

No caso específico de meu projeto de trabalho denominado Você gostaria de participar de uma experiência artística?, há a opção pela encenação de protocolos relacionados aos papéis do "artista" e do "participante" da obra de arte contemporânea: trata-se "uma investigação acerca do envolvimento do outro como participante em um conjunto de protocolos indicativos dos efeitos, condições e possibilidades da arte contemporânea".

São estabelecidas algumas linhas-limite para cada um dos papéis (aquele que propõe; aquele que reage à proposição de modo participativo) de modo a ser construído um ritual dialógico. De fato, uma vez aceita a provocação inicial por parte do participante, o que ocorre é a produção de uma ação ou evento, frente ao qual sou provocado a reagir – o participante torna-se então ‘propositor’, contribuindo com algo que me conduz à "participação", para que possa reagir frente ao que foi produzido e elaborado.

Há aí uma "assimetria" de papéis que se invertem, que considero produtiva e que contribui para uma outra composição das "ordens ou hierarquias" do circuito de arte, além de preservar e estender a discussão acerca das noções de "obra" e "autoria".

Na questão "você gostaria de participar de uma experiência artística?", está implícita a idéia de espaço para a expressão ou, no mínimo, de diálogo com quem formulou inicialmente a pergunta. A troca é inerente à existência da obra. O NBP, neste sentido, se encaixa numa das questões básicas da documenta 12: "o que é a vida nua?"

Ricardo Basbaum (dir.) e Roger M. Buergel em Kassel

Acredito que meu projeto contribui para as discussões gerais trazidas pela mostra, em todas as suas questões: parece-me que a documenta 12 propõe que estas discussões sejam elaboradas pelas obras elas mesmas, sem tantos desvios e mediações, e que seus "três temas" funcionem como eixos amplos de organização desta conversa também "infinita" – considero esses traços bastante positivos.

Entretanto, esta não é uma tarefa simples e é de se esperar uma tramitação complexa do problema – ou seja, a elaboração de questões no tempo direto mesmo de relacionamento com os trabalhos requer cuidados de aproximação para evitar leituras superficiais...

No caso, acredito que meu projeto de trabalho aponta em diversas direções e produz questões importantes a respeito das relações da obra contemporânea com o circuito de arte, sua dimensão conceitual e seu papel enquanto ação de resistência frente ao quadro de um capitalismo cultural que se insinua junto ao campo da arte a qualquer preço, instrumentalizando-o.

Guy Brett estabelece um paralelo entre seu trabalho e o legado de Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica, no sentido de uma "compreensão participatória da arte". Como você vê seu próprio trabalho dentro desta tradição?

Sim, a presença de meu trabalho dentro desta linha de discussão da arte contemporânea brasileira é também reivindicada diretamente por mim: a própria noção de "transformação", característica fundadora do projeto NBP, foi concretamente referenciada no trabalho de Clark e Oiticica.

Logo, sinto-me confortável frente à sugestão de Guy Brett – sobretudo por não haver uma conexão diretamente formal, e sim conceitual. Interessam-me as noções de "linha orgânica", de Lygia Clark, "espaços imantados", de Lygia Pape, de "suprasensorial", de Hélio Oiticica – entre outras importantes invenções conceituais dos três artistas.

Mas ao mesmo tempo meu trabalho difere radicalmente de Clark e Oiticica no sentido de não postular qualquer horizonte utópico de "cura" ou redenção aos problemas do presente – procuro, nesse sentido, responsabilizar o participante por uma tomada de posição mais específica quanto à possível transformação pretendida, pensando na obra de arte como ferramenta produtora de questões e deflagradora de discurso.

Há um abismo entre o principal período de atuação desses artistas e o momento em que iniciei minha produção (os anos 1980), marcado pela presença do governo militar estatizante, que forçou a interrupção de alguns processos culturais – dentre os quais o experimentalismo brasileiro contemporâneo, retomado a duras penas somente a partir dos anos 1990 (embora algumas ações pontuais multimídia tenham emergido na década anterior, sendo obscurecidas pela euforia efêmera da "volta à pintura").

dw.de

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