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Cultura

"Você gostaria de participar de uma experiência artística?"

Na trajetória do projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística?, parece claro seu desejo de dar voz ao discurso sobre a obra, de abrir espaço para a "constituição de um pensamento coletivo". Esta postura permanecerá atual durante a documenta? Haverá alguma reflexão contínua sobre a obra durante a mostra?

Sim, existe o interesse concreto por um "pensamento coletivo", na medida em que o espaço de funcionamento e reverberação da obra de arte é sempre resultado da mobilização de muitos – não existe a decisão de "ser" ou "atuar" como artista enquanto a simples decisão de um sujeito individual, isolado.

Um dos aspectos mais fascinantes do campo da arte é a contínua mobilização de redes de apoio ou repulsa de certas ações ou tendências, dinâmica esta que caracteriza a dimensão política do chamado circuito de arte em suas diversas facções ou segmentos (fator em geral obscurecido ou recalcado pela discussão de uma arte pretensamente "universal", absolutamente verdadeira, bela ou exemplar, independente de sua inserção contextual).

No caso de meu projeto específico de trabalho apresentado na documenta 12, acredito que uma de suas características é a de constituir um corpo coletivo de ação e pensamento, a partir das experiências realizadas pelos participantes e postadas no website.

NBP: participação de Márcia Prezzoti, Vitória, 1995

Além disso, a seção de "comentários" – presente no mesmo website – foi planejada para incorporar textos de autores diversos, que aos poucos contribuem para a construção de um pensamento polifônico e conjunto, apontando para diversas direções.

Em ensaio, Maria Moreira cita que seu projeto contém um elemento fundamental à cultura brasileira: a experiência de "repersonalização". Gostaria que você explicasse melhor isso que a ensaísta chama de "estratagema de convívio" da sociedade brasileira, supostamente localizado na sua obra.

Penso que esta pergunta deve ser direcionada à autora Maria Moreira, mais do que a mim. No entanto, acredito na importância de enfatizar a especificidade das inscrições culturais – mas estas se dão a partir do caldo cultural múltiplo, dentro do qual o artista está mergulhado (sem esquecer que hoje esta inserção se dá enquanto pertencimento a uma esfera comunicacional e tecnológica globalizante), sendo de percepção mais difícil e complexa.

O mais interessante é se pensar as ferramentas da arte contemporânea sendo diferentemente contaminadas em cada uma de suas inscrições culturais, revelando a importância de uma "antropologia" que estaria atenta às interfaces entre arte e cultura, revelando o quanto os campos se contaminam reciprocamente.

É claro que a arte se inscreve culturalmente; mas, na maioria dos casos, os aspectos dessa inscrição não são tematizados, reforçando uma pretensa autonomia das linguagens frente às inscrições culturais específicas. Por outro lado, seria incorreto reduzir a vocação dinâmica da arte contemporânea à mera ilustração de elementos culturais dos quais seria simples portadora: é mais interessante perceber a obra como portadora de elementos híbridos de várias procedências, causadores de choques culturais diversos.

A arte contemporânea – e antes, a arte moderna – pode ser considerada veículo privilegiado de uma vocação antifundamentalista do pensamento. Talvez a contribuição da cultura brasileira a essa conversa se dê a partir do reconhecimento de sua matriz fundadora enquanto agregado cultural – ou seja, a beleza da mistura contra a pureza reducionista.

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