Em entrevista à DW-WORLD, o arquiteto Daniel Libeskind fala sobre o desafio de reconstrução do Ground Zero, local dos atentados em Nova York, sobre o papel da arquitetura após o 11/09 e sobre o significado da memória.
O arquiteto americano Libeskind: 'A lembrança é a dimensão mais profunda da alma'
Cinco anos após o 11 de setembro – é hora de olhar para o passado ou para o futuro?
Projeto vencedor de Libeskind
Eu acredito que não se pode olhar para frente sem olhar para trás e manter viva a memória. O coração daquela área de Manhattan foi destruído e uma grande ferida se abriu no centro de Nova York. O meu plano é trazer de volta a vida, afirmar a vitória da vida no local. Considerando a tragédia que significa a morte de milhares de pessoas, quero fazer valer ali a capacidade de resistência, a beleza e a vivacidade de Nova York.
E também construir um novo bairro, um memorial, naturalmente, mas também um novo terminal de transporte metropolitano, um espaço para novas atividades culturais, onde surgirão novos empregos. Não deve ser, entretanto, como se fosse o passado, mas sim com uma nova idéia de luz e abertura. Ao mesmo tempo, deve ser bonito e impressionante.
Com a altura do prédio principal, o senhor faz alusão ao dia da Independência dos Estados Unidos. Por quê?
Eu queria mostrar que não se trata de mais um prédio ao redor. Trata-se de uma dimensão simbólica. Aí pensei: 1776 [a altura do edifício em pés] – ano da declaração de independência dos Estados Unidos...
Quando as pessoas olharem para o céu, não deverão pensar somente num prédio alto que amanhã talvez verão em Xangai ou Nairóbi. Não, elas deverão pensar que esta data na história do mundo trouxe a democracia. Trata-se da igualdade de direito para todos.
Isto é algo que nunca será superado por nenhum outro edifício, pois o emblema, a "Ponta da Liberdade" no topo do edifício – o governador o chamou de "Torre da Liberdade" – será para sempre um símbolo de Nova York.
O senhor teve que considerar aspectos de segurança que antes do 11 de setembro não tinham importância?
Sim, a segurança é um dos grandes temas na reconstrução do Ground Zero. Após os ataques ao World Trade Center, todos tivemos que repensar a forma de construção dos edifícios. E com certeza é a questão mais importante, pois sabemos como isso será importante no futuro.
Acredito que a tecnologia de ponta seja necessária para tornar os edifícios mais seguros. Ao mesmo tempo, temos que considerar que vivemos numa cidade aberta e democrática. Não estamos construindo nenhuma fortaleza.
O projeto inicial para Ground Zero foi bastante modificado. O que o senhor acha disso?
A nova 'Freedom Tower': modificação do projeto de Libeskind
O meu plano diretor – abstraindo o fato de que eu não sou o arquiteto do principal edifício – ficou relativamente intacto. Naturalmente o plano diretor se desenvolveu, mas continuou fiel ao que Nova York tinha escolhido. O fato de ser um projeto a muitas mãos é verdadeiro. São diversos bons arquitetos, como Frank Gehry, Lord Forster e Rogers. Existe aí uma divisão de tarefas, mas há uma unidade de idéias e de espírito, quando se trata do design que sugeri para o projeto.
Como o 11 de setembro modificou o clima entre os intelectuais em Nova York?
Acredito que infelizmente as tensões do mundo foram transportadas para o nosso meio. Não existe mais nada abstrato. Todos entendemos melhor o que significa globalização. O que significa estar no centro do mundo e reagir a estes ataques. Os políticos ou o Exército reagem de outra forma, mas a arquitetura pode reagir de forma criativa quando ela constrói ou reconstrói algo. Ela pode criar algo positivo.
Quando se observa esta região de Manhattan hoje, nota-se que várias pessoas estão voltando a morar no local. Muitos prédios de escritório estão se convertendo em prédios residenciais. As pessoas sentem que a região não será mais o que era. Será um bairro com arte, onde as pessoas podem empreender coisas. Não será como antes dos atentados.
Como o senhor vivenciou o 11 de setembro?
Foi uma estranha combinação de datas. O 11 de setembro de 2001 foi o dia de abertura do Museu Judaico em Berlim para o público. Naquele dia, fui ao meu escritório e disse a mim mesmo: "Pela primeira vez não preciso pensar sobre o Museu Judaico. Agora ele está aberto". Então acontecem os atentados e uma nova treva se alastrou ao meu redor, ao ver as imagens na televisão naquela tarde.
Vi as imagens e falei para a minha esposa e amigos: "Vou voltar para Nova York, vou voltar para aquela região de Manhattan". Que estranho que eu tenha vindo parar justamente aqui e neste exato momento esteja olhando para Ground Zero, com a responsabilidade de reconstruí-lo.