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Cultura e Estilo

DJ Hans Nieswandt: uma volta ao mundo em 80 beats

Desde Stockhausen e Kraftwerk, a música eletrônica começou a fazer parte do patrimônio cultural alemão. A música eletrônica é algo tipicamente alemão?

Música eletrônica deve muito ao grupo Kraftwerk

Não é algo tipicamente alemão, porque outros países também têm boa música eletrônica, mas eles também têm um forte folclore. A Alemanha teve uma vantagem através do grupo Kraftwerk, cuja imagem era bastante alemã. Eles eram muito precisos nos movimentos, faziam uma arte-engenharia, eles lidaram muito bem com a língua alemã. Para muitas pessoas, funciona bem a imagem do alemão como racional, sem nenhum suor, mas apesar disso, funky.

A associação com os robôs do Kraftwerk, que têm alma. Tudo isso pôde se personificar melhor nos alemães.

Você menciona em seu livro cidades como Chicago, Detroit e Sheffield como origem do movimento tecno e house. Qual a influência de Stockhausen e Kraftwerk nesta origem?

Como origem do tecno e house, Kraftwerk tem possivelmente uma importância maior do que Stockhausen. Este mostrou as possibilidades dos equipamentos eletrônicos, dos osciladores e moduladores. Kraftwerk lucrou com este desenvolvimento iniciado por Stockhausen e o levou para o nível da cultura pop.

Com relação ao movimento iniciado em cidades como Chicago, é fascinante observar como os negros se soltaram na música do Kraftwerk, quando tocada nos clubes. O movimento tecno e house se iniciou com o Kraftwerk e foi continuado pelos habitantes e DJs de tais cidades.

Qual a relação entre música eletrônica e globalização?

Jovens também entendem de música pop no workshop do Centro Ramalá

A relação é muito forte, se considerarmos globalização como um conceito neutro, nem positivo nem negativo, que simplesmente acontece. Eu noto principalmente nos meus contatos de internet que pessoas em Bagdá, por exemplo, sabem muito bem o que estamos produzindo em Colônia, por isso acho que posso ir a diversos lugares do mundo e encontrar pessoas que me entendem.

Mas, ao mesmo tempo, gosto de encontrar diferenças regionais dentro desta linguagem supra-regional. Não que a música eletrônica que venha do Brasil tenha que ser uma espécie de samba eletrônico. Eu me divirto muito em observar as diferenças entre os sons e as pessoas pelo mundo e utilizá-las nas minhas viagens quando faço música.

O público é diferente de país para país?

Existem diferenças de mentalidade. Na Rússia, o público gosta de se esbaldar em um ritmo truncado, em uma música forte. O Brasil é um país cheio de ritmo, lá se pode tocar música bonita, não necessariamente suave e melódica, mas bonita. Já o Líbano que eu conheço é bastante ocidental, cristão, hedonista e bastante moderno. Para mim, tocar em Beirute é como tocar em Barcelona.

Você acompanha os acontecimentos no Líbano?

Viajando pelo Oriente Médio: 'From Disco to Disco'

Sim, diariamente e bem de perto através de amigos que lá estão. Eles estão todos desesperados. O Líbano é um país lindo, com clubes, praias e boa comida. É uma pena, eu mesmo tinha pensado em passar férias lá. Nunca houve tantas reservas como neste verão e agora tudo está destruído novamente. Destruir o aeroporto não faz sentido, eu não acredito que o Hisbolá transporte armas em grande estilo pelo aeroporto de Beirute. Foram necessários 16 anos para reconstruir o país, e agora isso.

Você faz som no mundo todo e para todo tipo de público e tem-se a impressão de que você o respeita muito. Este é o segredo, dar ao público o que ele quer?

Sou um pouco como um médico, um padre ou uma dominadora. Quem vem para a minha "missa" ou "visita", eu trato de forma que tenha uma experiência bastante especial, e os meios para tal são os mais diversos. Quando jovem, eu era muito mais sectário quanto ao estilo musical, agora sou bem mais relaxado. Categorias são aborrecidas. Para mim, hoje tudo é música.

Você quer levar o público ao orgasmo?

Não, quero levá-lo a uma transcendência.

Além de fazer som, por que um DJ escreve livros?

Isto é um pouco subversivo. Eu quero desmontar preconceitos e acho muito importante que a cultura de clube seja política. Eu estou consciente de que a maioria das pessoas que vai a festas tecno não lê sobre política nem assiste ao noticiário sobre a crise do Oriente Médio, mas elas lêem os meus livros. Acho importante transmitir informação política, usando como pretexto um inocente livro de DJ.

Pai de dois filhos, Hans Nieswandt nasceu em 1964 em Mannheim e vive atualmente em Colônia. Seu livro Disko Ramallah e outros lugares curiosos para se fazer som foi lançado em 2006 pela editora coloniana Kiepenheuer & Witsch.

dw.de