Enquanto praticamente todos os jogadores na Copa do Mundo têm seus sobrenomes estampados nos uniformes, o mundo se vê obrigado a treinar a pronúncia nasal para dar conta de tantos "inhos" na equipe brasileira.
Ronaldinho: diminutivo na boca do mundo
Herança da escravatura
O brasileiro, via de regra, só vem a refletir a respeito desta especificidade nacional quando sai do país e é chamado, na Europa, por exemplo, de senhor ou senhora sobrenome.
Segundo o jornalista britânico Alex Bellos, correspondente no Brasil dos jornais The Guardian e Observer e autor do volume Futebol: O Brasil em Campo, a prática do uso de prenomes é uma herança da escravatura, abolida oficialmente, do ponto de vista histórico, há pouco tempo, no ano de 1888. Bellos acredita que os apelidos também serviam para designar os escravos – isentos de sobrenomes – como tais.
"Socialmente invisíveis"
Cicinho, outro na lista dos diminutivos da Seleção
O sociólogo Murad lembra, neste contexto, que o uso de apelidos ou prenomes ocorre mais nas camadas socialmente inferiorizadas da sociedade brasileira, "onde a invisibilidade social é significativa".
Nos setores dominantes da elite, lembra Murad, "houve no passado e ainda há no presente o interesse em mostrar o sobrenome como veículo de prestígio. Em algumas áreas profissionais, este aspecto é muito relevante, como Medicina e Direito".
Cristãos-novos
Há ainda teorias segundo as quais a omissão do sobrenome vem de muito antes na história do país, tendo sido um costume introduzido pelos chamados "cristãos-novos" – judeus e mouros, que haviam sido obrigados a se converter ao cristianismo na Europa. Como os sobrenomes, neste caso, poderiam "denunciar" a origem dos imigrantes, eles preferiam se apresentar usando apenas os prenomes, para evitar discriminações.
Fenômeno do Novo Mundo
Theodor W. Adorno: 'prenomes transformados em marcas publicitárias'
Até mesmo os filósofos alemães Theodor W. Adorno e Max Horkheimer se ocuparam da predileção pelos prenomes no chamado "Novo Mundo". Na Dialética do Esclarecimento, escrita no exílio norte-americano, os teóricos denunciam uma "estilização que transforma os prenomes arcaicos em marcas publicitárias". O fenômeno foi descrito em relação aos Estados Unidos, onde os dois estavam vivendo.
"Em compensação, parece antiquado o nome burguês, o nome de família, que, ao contrário das marcas comerciais, individualiza o portador, relacionando-o à sua própria história. Ele desperta nos norte-americanos um estranho embaraço. Para disfarçar a incômoda distância entre indivíduos entre si, eles se chamam de Bob e Harry, como elementos intercambiáveis de teams. Tal prática degrada as relações pessoais à fraternidade do público esportivo, que impede a verdadeira fraternidade", escreveram Adorno e Horkheimer.
Camuflando a distância real
Dizer que o costume europeu tradicional de usar o sobrenome, em oposição à "superficialidade" do Novo Mundo com seus prenomes, fortalece a "fraternidade verdadeira" e minimiza a "distância incômoda" entre os indivíduos, é certamente bastante discutível.
Ao mesmo tempo, a "democracia dos apelidos", como analisa Murad, pode servir no Brasil como uma forma de esconder o abismo existente entre pessoas de diferentes classes sociais.
"Do mesmo modo que se fala no Brasil em democracia racial e que isto é uma maneira de camuflar o nosso racismo, que não é pequeno, poderíamos dizer, também, que o uso generalizado de apelidos (e de diminutivos como Ronaldinho, Juninho, Robinho) pode ser uma tentativa de mostrar uma proximidade entre as pessoas, o que na realidade não existe. O mínimo de vivência no Brasil é suficiente para se observar que esta democracia dos apelidos é algo de fachada, tendo em vista uma sociedade tão hierarquizada e excludente como a brasileira", conclui o sociólogo.