Favela carioca: literatura própria
Dentro do contexto de produção cultural dentro da favela, a professora, jornalista e crítica cultural Heloísa Buarque de Hollanda lembrou no debate com o público berlinense um tipo de trabalho que permanece desconhecido, na maior parte das vezes, ofuscado pelas luzes dos holofotes da dança, da música e do teatro: a literatura.
Heloísa Buarque de Hollanda pontua dois marcos importantes no surgimento desta produção literária. O primeiro foi a publicação do volume Cidade Partida, do jornalista Zuenir Ventura, cujo tema era a vida dentro da favela de Vigário Geral.
"A violência e a miséria sempre foram tema de livro, mas, pela primeira vez, a abordagem foi inovadora. Em vez de escrever em estilo jornalístico, Zuenir Ventura deu voz aos próprios moradores da comunidade, para que fizessem seus relatos. Foi a primeira vez que estas vozes tiveram espaço e puderam ser escutadas", diz a professora, citando o exemplo de Flávio Negão, traficante em Vigário Geral.
Literatura produzida na favela
Cidade Partida logo se tornou best-seller e as editoras perceberam que havia uma demanda por este tipo de literatura, um interesse pela vida da favela. Na mesma linha, surge, pouco tempo depois, Carandiru, do médico Dráuzio Varella, sobre o cotidiano do presídio localizado em São Paulo do ponto de vista dos próprios prisioneiros.
Mais uma vez, vozes antes negligenciadas se tornam sucesso nas livrarias, abrindo espaço para a literatura que, além de ser sobre a favela, vem diretamente dela. Neste contexto, é lançado Cidade de Deus, de Paulo Lins. O autor do livro era estudante de literatura e auxiliava uma professora da universidade em seu trabalho antropológico sobre violência em conjuntos habitacionais.
Dos relatórios, nasceu um romance que, pela primeira vez, foi escrito dentro da comunidade, por um de seus membros. A história do conjunto habitacional Cidade de Deus, localizado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, tornou-se sucesso de público e de crítica e foi parar nas telas do cinema, sob a direção de Fernando Meirelles e Kátia Lund.
A crônica do gueto
Hoje, o que se percebe deste tipo de produção literária, diz Heloísa Buarque de Hollanda, é uma corrente que vai da "crônica" à "literatura de prisão". Mais do que isso, a produção tomou outras formas, adotou um novo formato autoral, cujo exemplo mais importante é o livro Capão Pecado, que conta da vida no Capão Redondo, um dos maiores complexos de favelas de São Paulo, onde o índice de criminalidade é um dos maiores do Brasil.
Do hip hop, a literatura empresta a raiva, a crônica do gueto e o ritmo. Além disso, fica evidenciado nesta produção que o lugar passa a figurar como autor e a violência deixa de ser objeto espetacularizado para ser ambiente.
Como porta-voz da "geração de intelectuais dos anos 60", que se achavam no papel de "salvar" as favelas, Buarque de Hollanda diz-se contente e surpresa com a produção cultural que tem surgido deste espaço de adversidades.