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Brasil

Ex-presidente da Eletrobrás comenta energia atômica e protecionismo energético

'É necessário o desarmamento nuclear de todas as potências' reivindica o secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas

Além do senhor, palestrantes da Coréia e da Suécia vieram expor em Berlim o programa nuclear de seus países. Há diferenças em relação ao programa brasileiro? Como é a situação na América Latina?

Na América Latina, somente Brasil, Argentina e México possuem reatores nucleares. Acredito que o reator que estava sendo construído em Cuba, com tecnologia soviética, nunca se completou. Já a Coréia do Sul está entre as cinco primeiras potências nucleares mundiais, com um grande número de reatores. A Suécia, por sua vez, sofre o mesmo dilema do Brasil quanto à energia hidroelétrica, devido aos movimentos ambientalistas que se articularam no mundo inteiro.

Como o senhor vê o programa nuclear iraniano? O senhor acha que uma desconfiança em relação ao Irã poderia ser transferida para o programa nuclear de outros países, como por exemplo, o Brasil?

Acredito em uma solução bilateral e regional para o problema iraniano, como o foi entre o Brasil e Argentina, que estavam longe, mas na direção de construir a bomba. Assim como entre o Brasil e Argentina, que fecharam um acordo de inspeção mútua de suas instalações nucleares, criando para tal uma agência ligada à Agência Internacional de Energia Atômica, o que lhe dá credibilidade. Em nível regional, o Tratado de Tlateloco desnuclearizou a América Latina.

No caso do Irã, aconselharia uma solução regional, porque Israel tem a bomba e não sofre pressão. O mundo erra em estar em assimetria e o desarmamento nuclear é necessário. É necessário o desarmamento nuclear de Israel, é necessário o desarmamento nuclear de outras potências e é preciso evitar que o Irã construa a bomba, pois uma bomba nuclear pode ser o fim da humanidade.

O senhor escreveu recentemente um artigo sobre o desejo de compra da Endesa espanhola pela Eon alemã. Um caso semelhante foi a tentativa de compra da Suez francesa pela Enem italiana, que provocou várias discussões em torno do protecionismo energético na Europa, sendo o caso inclusive levado à Comissão Européia.Como o senhor vê isso?

Energia é uma questão de importância nacional. Existe uma ilusão da ação do mercado na resolução de problemas, que é cultivada principalmente no mundo ocidental desenvolvido. Ele funciona na resolução de problemas envolvendo uma população rica onde a competição é real. Isto não é o caso da energia, principalmente em países em desenvolvimento.

O caso do desejo de compra da Endesa espanhola pela Eon alemã, ou no caso citado entre a empresa francesa e italiana, as vendas foram impedidas pelos governos de cada país. É uma lição para o Brasil no caso de abrir mão de sua energia.

Qual a vantagem da iniciativa estatal no setor energético e quais os perigos da privatização do setor?

O racionamento acontecido no Brasil em 2001 é uma prova disto. Os grupos estrangeiros não investiram na expansão na medida necessária e a omissão governamental levou ao racionamento, problema que foi resolvido somente através da intervenção federal, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Eu não concordo com a política energética do governo atual do presidente Lula, que mantém uma certa participação estatal, cujo melhor resultado é a independência das importações de petróleo conseguida pela Petrobrás, mas mantém, em termos de energia elétrica, a Eletrobrás imobilizada.

Luiz Pinguelli Rosa, 64 anos, nasceu no Rio de Janeiro. É doutor em Física pela PUC – RJ e professor titular da UFRJ. Já esteve à frente da Sociedade Brasileira de Física por dois mandatos e presidiu a Associação Latino-americana de Planejamento Energético, de 1994 a 1998. Foi entre 2003-2004 presidente da Eletrobrás e no momento é secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

dw.de