Embora Freud tenha ignorado as mazelas do colonialismo no início do século 20, ele se voltou como poucos para a descoberta "do Outro em nós mesmos". Poderia falar um pouco sobre o paradoxo deste Freud "eurocêntrico", que abriu, porém, as primeiras portas para a discussão sobre a alteridade?
Freud e a Filosofia, de Joel Birman
A questão do Outro se encontra presente desde os primórdios do discurso freudiano. Na contramão da tradição do individualismo moderno, Freud sempre propôs que o Outro é uma dimensão fundamental para a constituição e a reprodução do sujeito, sem o qual este não poderia existir. Os ensaios freudianos sobre a cultura e a sociedade, que culminaram num ensaio sobre o Mal-estar na civilização, atestam isso fartamente.
A hipótese freudiana de que Moisés era egípcio, e não judeu, indica como ele introduziu uma dimensão de alteridade na sua própria tradição. De forma que seria preciso analisar o discurso político de Freud com mais nuance, inclusive no que concerne à tradição sionista, para não fazermos afirmações apressadas.
Ao pensar sobre a explosão da violência na cultura da atualidade, o senhor observa que ela se dá em conseqüência de "um não exacerbado à diferença". Hoje, na Europa, propaga-se a necessidade de "tolerância" em relação ao que se mostra "diferente" dos padrões europeus. Concorda que "tolerar" o Outro pressupõe uma aversão, uma vez que só tolero aquilo que, a priori, abomino ou rejeito?
Sem dúvida, a tradição européia tem uma dívida ainda não saldada com a tradição colonialista. Tanto em relação aos africanos quanto aos árabes, existe uma dificuldade de aceitação plena da diferença, de forma que a política de tolerância é um caminho inicial para superar tais obstáculos. Pelo menos é a perspectiva adotada pelos partidos mais esclarecidos para se opor à direita raivosa, que se opõe a toda e qualquer forma de imigração, sustentando um nacionalismo tacanho.
Existe hoje uma teoria psicanalítica especificamente brasileira?
Seria difícil afirmar que existe uma teoria psicanalítica brasileira. Como em outros países latino-americanos, sobretudo a Argentina, desenvolvemos uma sensibilidade para a investigação de certos temas, voltados para o social e o político, em decorrência de nossas condições sócio-históricas. Suponho que por esse viés começamos a construir a nossa especificidade, que é reconhecida pelos europeus.
O escritor israelense Abraham Yehoshua afirma que a culpa – para Freud um dos principais combustíveis da civilização – foi transferida do individual para o coletivo ( a "culpa" da esquerda, dos intelectuais, dos tribunais, das universidades, dos militares, da cidade, dos políticos, etc). É possível falar em um fenômeno de coletivização da culpa, quando se pensa sobre a sociedade brasileira?
Suponho que não existe ainda no Brasil uma coletivização da culpa, que prefiro denominar de responsabilidade. Para que esta coletivização aconteça, necessário seria que as classes dominantes e as elites brasileiras aceitassem pelo menos perder os anéis senão os dedos. Acredito que estamos ainda muito distantes disso.
Joel Birman é graduado em Medicina, com especialização em Psiquiatria. Mestre em Filosofia pela PUC-RJ e doutor em Filosofia pela USP, com pós-doutorado pela Université Paris VII. É professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ e professor adjunto do Instituto de Medicina Social da UERJ.
Autor, entre outros, de Psicanálise, Ciência e Cultura (Jorge Zahar, 1994), Por uma estilística da existência (Editora 34, 1996), Estilo e modernidade em psicanálise (Editora 34, 1997), O mal-estar na atualidade (Civilização Brasileira, 2001, Freud e a Filosofia (Jorge Zahar, 2003).