Canto confiscado
Segundo Rehaag, após a Segunda Guerra, os alemães foram forçados a rejeitar suas canções tradicionais, "usurpadas" pelos nazistas e instrumentalizadas como vetores de propaganda. "Depois da guerra, aboliu-se o canto em conjunto nas escolas e jardins da infância. Hoje em dia, os corais são coisa para idosos ou crianças. Mas entre as pessoas de 30 a 50 anos de idade, há uma enorme demanda".
Para ela, o gospel é a melhor chance de a Igreja conquistar um público jovem: "Diversos coros jovens adotaram o nome de 'coro gospel', quer cantem gospel ou não. Talvez estejam apenas cantando spirituals. Isso atrai gente – que normalmente evitaria a igreja, mas 'gospel' soa interessante".
Gospel sim, Igreja não
Na igreja tradicional a ordem é 'sentar e ficar calado'
Ansgar Puff, padre da igreja católica de São José, em Düsseldorf, onde Angelika Rehaag dirige um coro, vê a questão com mais ceticismo. O gospel pode aproximar as pessoas da religião, mas até o momento não há evidência de que esteja acrescendo o rol dos fiéis.
"Muitos começam a cantar gospel sem nem entender o que estão dizendo. Até que, em algum momento, têm que tomar consciência do texto, para que seja frutífero, e isso as leva a pensar sobre sua fé. Porém, o próximo passo seria que se filiassem à Igreja e não vejo que isso aconteça".
Note-se que, na Alemanha, os fiéis têm de se cadastrar como tal e pagar impostos regularmente, quer para a Igreja Católica, quer para a Luterana.
O caso de Christine Ehlert sugere que Puff pode ter razão. A terapeuta ocupacional de 42 anos rompeu com a Igreja há tempo, porém, faz dois anos, canta no coro de Morgan Hammond: "Não relaciono necessariamente meu amor por essa música com a Igreja. Certamente faz bem, é como remédio. Mas não tem que se referir ao amor de Deus".
Revolução pela música
A regente Adrienne Morgan Hammond acredita que a música fala por si: "Tento não martelar religião na cabeça dessas pessoas. Mas praticamente tudo o que cantamos traz o nome de Deus. Não preciso me levantar e pregar. Mesmo os que não acreditam são tocados, de algum modo".
E a californiana acrescenta: "Quando jovem, queria ser missionária. Agora me considero missionária na Alemanha. Estou tentando revolucionar a Igreja e trazer de volta os que se cansaram, ou de ter que ficar em silêncio total na igreja, ou de sofrer".