Existe um 'livre-arbítrio', ou o homem pensa e Deus dispõe? O psicólogo e perito em cognição Wolfgang Prinz defende a razão humana. Nosso cérebro é bem mais do que um circuito automático de sinapses.
A 'fiação' do cérebro
DW-WORLD: Professor Prinz, costuma-se citar uma frase sua: "Não fazemos o que queremos, nós queremos o que fazemos". Confere?
Wolfgang Prinz: Esta frase é um resumo espirituoso da interpretação dos experimentos do neurofisiólogo norte-americano Benjamin Libet. Estes parecem mostrar que primeiro um movimento é iniciado no cérebro – por exemplo, levantar o dedo – e em algum momento mais tarde a pessoa tem a impressão de que efetivamente quer realizar o movimento.
No entanto, as decisões voluntárias ocorrem de forma diversa aos reflexos, ações instintivas ou coisas triviais como levantar um dedo. Na grande maioria das situações do dia-a-dia, primeiro refletimos detidamente, para depois agir.
Então podemos continuar partindo do princípio de que não nos reduzimos a apenas reagir, mas sim que há motivos, razão, discernimento, ação planejada?
Tais coisas existem, porém o seu papel não está totalmente claro. Aquilo que percebemos – ou seja, nossas intenções – não é automaticamente a causa real de nossas ações. Pode ser que nos iludamos, e que o percebido não tenha exatamente as funções que lhe atribuímos. Pois nossa percepção não passa de uma imagem seletiva da realidade.
Também o que sabemos sobre nossa vida interna é altamente seletivo. Está sujeito a ilusões e pode ser tão falso quanto o que sabemos sobre o mundo. E não é a menor garantia de que os processos e mecanismos fundamentais funcionem realmente como dita nossa intuição.
Mas isso significa que cada um percebe o mundo de forma subjetiva. Como é possível comunicar-se com os outros, da forma que seja?
Enquanto a subjetividade das diferentes pessoas for organizada de forma semelhante, não é nenhum problema. E os mecanismos sociais cuidam para que seja assim. A subjetividade não nos é dada pela natureza, mas sim socialmente construída. Discursos e práticas sociais garantem uma equiparação da subjetividade nos indivíduos. Caso contrário, a comunicação deixaria de funcionar.
Há uma determinação social das ações, fazendo-nos reagir automaticamente a condições sociais básicas?
Nebulosa N44F, fotografada pleo telescópio Hubble