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Especiais

Uma vida plena, sem Deus

O ser humano é uma grandeza negligenciável dentro de um universo infinito. E não necessitamos de um Deus, afirma o filósofo Bernulf Kanitscheider, num ensaio para a DW-WORLD.

Nenhum deus em lugar nenhum

Diante de uma situação epistemológica tão desoladora, seria bem pouco inteligente uma pessoa racional fundar o sentido de sua vida e a sua orientação existencial sobre um ser ontologicamente tão duvidoso.

Há 2300 anos, o filósofo grego Epicuro já desaconselhava o homem a basear suas metas existenciais em ilusões metafísicas. Sobretudo ele argumentava que – com suas explosões de cólera e ameaças de punição em tenebrosos infernos – os deuses haviam trazido mais infelicidade do que felicidade aos seres humanos.

Deste modo, sabiamente antecipava aquilo que, na era cristã, encontraria seu apogeu nas visões infernais de um Dante Alighieri (A Divina Comédia).

Epicuro aconselhara o homem a desviar o olhar da vastidão espacial de seu lugar de morada, voltando-o para a configuração de seu intervalo finito de vida. A extensão incomensurável do universo e a significação quase nula de nossa permanência terrena não nos devia intimidar – não, nossa atenção devia concentrar-se no êxito da vida, o cuidado com o próximo dia. Assim, o olhar também não se perderia nas amplitudes da perspectiva escatológica.

Nem os deuses imortais, cuja existência nenhum mortal é capaz de provar, nem a amplitude do cosmos oferecem ao ser humano apoio, força ou orientação. Valores fomentadores da felicidade não aparecem simplesmente em nosso caminho: é preciso nós mesmos os definirmos. Tampouco a filosofia poderá preparar um pacote de valores para cada um. A felicidade humana é individual.

Livre arbítrio como definição de dignidade

É possível citar alguns grupos de valores: música, artes plásticas, literatura e, é claro, a aquisição de saber. Para um entusiasta, até mesmo o cosmos infinito – ou, quem sabe, um conjunto de tais mundos – pode ser o objeto de uma atividade de pesquisa que lhe preencherá a vida e trará felicidade. O engajamento social – como meta autoimposta, não como exigência divina – também pode comunicar a uma pessoa a consciência de que "valeu a pena" viver.

Dentre todas essas alternativas de orientação, é decisivo que o fator doador de sentido não seja determinado por uma instância superior. Que não seja, portanto, imposto à pessoa, sem possibilidade de discussão, mas sim que ela seja totalmente responsável pela definição de sentido.

Se quisermos recorrer ao conceito de "dignidade", então cabe colocar a autonomia, o livre arbítrio, no centro da dignidade humana. O homem possui dignidade justamente pelo fato de dispor de um grau especial de liberdade cognitiva e axiológica, que o capacitam a definir individualmente o sentido da existência.

O ser humano como senhor de si mesmo

Não há motivo para resvalar num niilismo apático em face à condição humana – a qual, sem dúvida, é de total insignificância cosmológica. Embora o "fenômeno homem" seja – diante das miríades de mundos – antes um fenômeno passageiro e secundário, ainda podemos – administrando nossa finitude de modo inteligente – alcançar uma forma de vida plena de significado.

Desnorteados, depois de ter, durante séculos, instâncias exteriores definindo este significado, muitos não concebem a possibilidade de definir, por si mesmos, o sentido, meta e orientação de suas vidas. As religões procuram, é claro, – por puro interesse próprio e reafirmando o quanto são imprescindíveis – declarar a autodeterminação como obsoleta.

Mas o ser humano livre não se deve deixar ludibriar. Começando por estabelecer, ele próprio, uma tabela de valores para sua conduta de vida, ele já estará praticando uma forma de definição de sentido.

Bernulf Kanitscheider é professor de Filosofia das Ciências Naturais na Universidade de Giessen. Entre seus temas principais constam os problemas filosóficos da teoria da relatividade e da mecânica quântica. Kanitscheider é um dos editores da revista Philosophia naturalis: Arquivo de Filosofia das Ciências Naturais e Campos Limítrofes Filosóficos das Ciências Exatas e da História da Ciência.

DW.DE

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