"Freudocentrismo" persiste na Alemanha
O que se observa nos países de língua alemã (com exceção da Áustria, país de origem do pai da psicanálise, onde a aquisição dos boletins de escola de Freud pelo Arquivo Estatal ainda rende notícia em todos os jornais) é uma tendência de tomar as armas dos opositores e fazer uso delas para defender a psicanálise.
Se os behavioristas, por um lado, lançam mão de argumentos empíricos contra a psicanálise, os defensores desta resolveram apelar para a "ciência", a fim de salvar a honra de Freud.
No congresso da IPA em Nova Orleans, no ano passado, a diretora do Instituto Sigmund Freud em Frankfurt, Marianne Leuzinger-Bohleber, representou a Associação Psicanalítica Alemã, apresentando um estudo representativo sobre os efeitos de longo prazo do tratamento psicanalítico.
A trilogia Poder e Dinâmica do Inconsciente (Macht und Dynamik des Unbewussten, Frankfurt: Psychosozial-Verlag 2005), recém-lançada na Alemanha, reúne estudos que abordam a questão do inconsciente de um ponto de vista não apenas fenomenológico e cultural, mas também neurológico e físico.
Abordada por todas estas perspectivas, a doutrina freudiana se mantém ilesa, no entanto, o que fez com que a publicação fosse criticada por "freudocentrismo" e falta de autocrítica.
Biologia do inconsciente
Na Suíça, os pesquisadores François Ansermet e Pierre Magistretti, apaziguaram a guerra entre psicanálise e neurobiologia, comprovando com argumentos empíricos que Freud tinha razão. Ambos os estudiosos delinearam uma espécie de biologia do inconsciente.
Em entrevista ao diário Neue Zürcher Zeitung, Ansermet explica que hoje "é possível provar certas teses de Freud com auxílio da neurobiologia": "A psicanálise oferece modelos para possíveis campos de pesquisa, por exemplo, a idéia de que o nosso cérebro pode ser alterado não só por influências externas, mas também por efeitos do universo psíquico. Isso significa que a pessoa gera os mais diversos tipos de impulsos e os acaba percebendo como tais".
Magistretti confirma que toda percepção deixa marcas no cérebro. "Esta marca pode se ligar a outras, de modo que o acontecimento originalmente apreendido e inscrito no nosso cérebro se altera, se deforma e abandona o âmbito consciente, para formar parte de um mundo interior não consciente e dissociado do exterior, ou seja, o inconsciente de Freud."
Mapa do esquecimento
Essas pesquisas realizadas na Suíça confirmam um estudo do psicólogo norte-americano Michael C. Anderson (Universidade de Oregon), publicado no ano passado na revista Science. A publicação reacendeu o debate sobre a questão do recalque.
Em cooperação com pesquisadores da Universidade de Stanford, Anderson conseguiu identificar pela primeira vez uma rede neuronal que viabiliza o recalque de lembranças indesejadas.
Esta argumentação cientificista não prova nada sobre a eficiência da prática psicanalítica, mas mostra que – diante da onda iconoclástica dos últimos anos – a reabilitação de Freud pode ocorrer com mais rapidez nos laboratórios do que nos divãs.