Enfermeira de Hitler quebra silêncio que já durava 60 anos e narra as últimas horas de vida do ditador. Em entrevista a jornal alemão, revela novas informações sobre o final do regime nazista.
Ela é a última testemunha. Erna Flegel, que tem 93 anos de idade e vive em um asilo para idosos, permaneceu anônima em sua casa até agora, e só depois de ser descartada pela CIA dos interrogatórios realizados após a Segunda Guerra Mundial, seu nome surgiu como a enfermeira de Hitler – demorou 60 anos para ela narrar suas experiências em um bunker de Berlim.
Enfermeira da elite nazista
Erna era enfermeira da Cruz Vermelha na Clínica Universitária de Berlim, responsável para tratar dos integrantes dos altos escalões nazistas. Em sua jornada de trabalho, atendia tanto na Chancelaria quanto nos ministérios de Hitler.
Bunker onde Hitler e sua esposa cometeram suícidio e tiveram seus corpos incinerados
Em 1943, foi chamada pela primeira vez para atender no bunker. Pouco a pouco, as visitas se tornaram mais freqüentes até que ela se tornou a enfermeira oficial da cúpula do regime antes da tomada de Berlim pelo Exército soviético.
Em entrevista publicada agora pelo diário alemão Berliner Zeitung, a enfermeira oferece novas informações sobre a personalidade do ditador e sobre as pessoas que o cercavam. "Hitler não precisava de cuidados especiais. Havia envelhecido muito nos últimos dias e o seu lado direito estava debilitado pelo atentado que sofreu. Eu estava ali para cuidar dos feridos", afirmou Erna.
A vida sentimental de Hitler também permanece intacta na memória de Erna Flegel. A enfermeira qualifica a amante do ditador, Eva Braun, como uma "jovem insignificante". A decisão de Hitler de casar-se com ela foi para Erna um sinal de declínio do 3º Reich.
Suicídio coletivo
Em suas últimas horas de vida, o ditador se despediu de toda a equipe médica, antes de se suicidar no dia 30 de abril de 1945. "Saiu de um quarto lateral, nos estendeu a mão, disse algumas palavras amistosas e isso foi tudo", contou Erna. Ela nunca chegou a ver o cadáver de Hitler. Soube que ele havia morrido ao ver no bunker mais médicos do que o normal. O corpo do ditador foi levado ao jardim da Chancelaria e incinerado.
Goebbels seguiu os passos do chefe e levou a família junto
A enfermeira também se referiu na entrevista ao suicídio posterior dos altos dirigentes do regime, em especial ao da família de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista que herdou o comando do Reich após a morte de Hitler. Erna disse que tentou em vão salvar a vida dos seis filhos de Goebbels, que tinham entre quatro e 12 anos de idade.
Magda Goebbels não lhe deu a oportunidade de salvar as crianças, e elas morreram no bunker. "Eu pertenço ao meu marido e meus filhos pertencem a mim", teria argumentado a esposa de Goebbels antes de a enfermeira tentar levar pelo menos dois dos filhos embora de Berlim.
Erna presenciou o final do suicídio da família e, segundo ela, foi o dentista Helmut Kunz que deu veneno às crianças. Depois o casal se matou.
O suicído coletivo no bunker acabou em rajadas de uns contra os outros. Quando tudo estava perdido, o grupo de oficiais da SS que continuava vivo tentou escapar. Erna, porém, permaneceu no bunker com outras pessoas, esperando a chegada dos russos e cuidando de feridos.
Apesar de Hitler ter sido um tirano tão cruel, Erna não tem nada contra o ditador. "Ele se mostrou sempre cortês e encantador. A sua autoridade era extraordinária." Com estas declarações, rompeu-se um silêncio que durava 60 anos a respeito da morte de um dos grandes criminosos da história. "Eu não queria levar esse segredo para o túmulo", disse Erna Flegel ao jornal alemão. "No final de sua vida, Hitler não confiava mais em ninguém."