Na primeira metade do século 20, a cinematografia alemã registrou desde as incertezas sombrias do expressionismo durante a República de Weimar até a perfeição estética nazista de Leni Riefenstahl.
A estabilidade política e o início de uma democracia favoreciam o florescimento da vida cultural. A era de otimismo durou até que a instabilidade econômica assolasse o país e fenômenos como o anti-semitismo se disseminassem pela sociedade.
Assim como o período anterior, o cinema na República de Weimar pode ser dividido em três fases. A primeira, entre 1919 e 1924, com o surgimento do expressionismo; a segunda entre 1924 e 1929 – os anos da Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit) – e a terceira entre 1929 e 1933, anos da introdução do cinema falado e de uma politização que precedeu a ascensão dos nazistas ao poder.
'O Gabinete do Doutor Caligari', de Robert Wiene
Expressionismo: sombras e incertezas – Tendo como pano de fundo a instabilidade social e política que sucedeu a Primeira Guerra Mundial, o expressionismo alemão trouxe às telas cenários macabros e assustadores, que podem ser considerados um espelho do inconsciente coletivo nacional da época.
Unindo elementos do romantismo alemão e da literatura gótica, os diretores expressionistas colocavam em cena personagens obscuros, interagindo em histórias bizarras, enclausurados muitas vezes em interiores claustrofóbicos e sombrios e freqüentemente vistos sob perspectivas deformadas.
Repulsa pelo Outro – Definido através de determinadas características formais e narrativas, o expressionismo alemão remete a uma profunda crise de identidade na sociedade de massas. Não isentos de preconceitos, estes filmes demonstram também a repulsa pela figura do outro (em alguns casos representado por personagens judeus), colocado quase sempre como um monstro ameaçador.
Sob o ponto de vista formal, pode-se dizer que o expressionismo foi um "fenômeno visual", através do qual conflitos como a incerteza e o medo provocados pela instabilidade política e econômica foram levados à tela através de personagens sombrios e perigosos, por exemplo, em O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene.
Tendo como cenário um espaço que mais se assemelha a um sonho ou a uma alucinação, o filme expressionista tematiza o terror, o misticismo e a magia através de uma representação teatralizada dos atores, que pode ser percebida através de gestos exagerados e da maquiagem extremamente pesada.
No que diz respeito à narrativa, os filmes expressionistas tinham com freqüência os perigos e as atrações da metrópole moderna como fio condutor, num universo em que a sexualidade feminina era com freqüência espetacularizada.
'Metrópolis', de Fritz Lang
"Anos estáveis" – Apesar de problemas estruturais na indústria do cinema, os anos entre 1924 e 1929 são considerados "estáveis" e identificados com nomes de grandes diretores como Ernst Lubitsch, Fritz Lang, F.W. Murnau e G.W. Pabst. Metrópolis (1927), de Fritz Lang, viria a se tornar o maior símbolo da Alemanha moderna da República de Weimar, bem como uma alegoria da sociedade da época.
Boa parte dos filmes do período traz reflexões sobre o espaço urbano e sobre o papel dos meios de comunicação de massa.
Tema de infindáveis dissertações acadêmicas, o cinema na República de Weimar foi responsável, entre outros, por um mapeamento das relações entre arte, política e entretenimento, entre o apelo popular do cinema e a ideologia dominante, além de ser um espelho do que se entendia então por vida moderna e urbana.
Os filmes mais conhecidos da época vêm influenciando cineastas até os dias de hoje, tendo servido de modelo estético para uma gama enorme de diretores nas últimas décadas.
Clássicos da teoria – Dedicados ao cinema da República de Weimar, dois textos clássicos servem de referência básica para qualquer análise da história do cinema: a leitura sócio-política De Caligari a Hitler (1947), de Siegfried Kracauer, e A Tela Demoníaca (1952), de Lotte Eisner.
Enquanto o primeiro via a cinematografia do período como pré-fascista, apontando as relações entre ansiedade/agressão e revolta/submissão nos filmes como símbolos de um caráter nacional alemão – formado em conseqüência de uma tradição autoritária –, o segundo volume detecta nos filmes expressionistas a herança do romantismo alemão.
Som – Em 1929, em meio à maior crise econômica vivida até então no país, estreava o primeiro filme sonoro alemão. As reações foram as mais diversas, desde os árduos defensores do cinema mudo, que viam na inovação o desemprego para centenas de atores. "O som apodrece os olhos e os ouvidos" era um dos motes contra a inovação técnica. A partir de então, contudo, a indústria cinematográfica desenvolveu-se rapidamente no país.
Embora o cinema durante a República de Weimar seja freqüentemente selado como o "mais inovador" da história do cinema alemão, há de se notar que principalmente entre 1924 e 1929 os filmes populares de entretenimento dominaram o mercado interno. Estes melodramas reafirmavam os valores tradicionais da família, opondo-se ao estilo de vida moderno que surgia nas grandes cidades.