1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Daniel Barenboim: músico transnacional faz 70 anos

Nascido na Argentina, o pianista e regente de origem judaica acredita na música e na educação como meios de aproximar as pessoas – no Oriente Médio e mais além. E, pela paz, não hesita em provocar um ou outro escândalo.

A vida de Daniel Barenboim é uma prova eloquente de que a música é capaz de atravessar muitas fronteiras. Menino-prodígio, ele deixou cedo a Argentina em direção a Israel e à Europa, onde há décadas celebra êxitos acumulados, como pianista e regente.

Cosmopolita poliglota, dotado de grande coragem civil, ele se engaja pela prática musical em conjunto como forma de superar preconceitos e construir pontes entre os povos. O que não significa que deseje se transformar de músico em homem de Estado: o lado político nunca o interessou, somente o humano, afirma.

"Fenômeno" pianístico

Daniel Barenboim em 1968, ao lado da violoncelista Jacqueline du Pré, então sua esposa

Daniel Barenboim em 1968, ao lado da violoncelista Jacqueline du Pré, então sua esposa

Nascido em 1942 em Buenos Aires, seus avós eram judeus que haviam escapado dos pogroms na Rússia indo para a América do Sul, no início do século 20. Aos 5 anos começa a aprender a tocar piano, e aos 7 anos já faz sua primeira apresentação em público.

Em 1952, os Barenboim emigram para Israel, e a primeira estação artística do menino é Salzburgo, Áustria, onde executa um concerto de Johann Sebastian Bach. Dois anos mais tarde, o legendário maestro Wilhelm Furtwängler o classificaria como "fenômeno".

Já naqueles anos, Daniel inicia a típica vida nômade de artista, com recitais em Viena, Roma, Paris, Londres e Nova York, e também realiza suas primeiras gravações fonográficas.

Românticos e contemporâneos

Em seguida à estreia como regente, em 1967, à frente da Philharmonia Orchestra de Londres, Daniel Barenboim passa a ocupar os pódios das melhores orquestras do mundo.

Torna-se maestro titular da Orchestre de Paris; em 1981 assume, pela primeira de muitas vezes, a direção musical no Festival Wagner de Bayreuth; logo passa a encabeçar a Chicago Symphony Orchestra; e em 1992 é nomeado diretor musical geral da Staatsoper Unter den Linden, de Berlim. Além disso, é nomeado em dezembro de 2011 para a direção musical do Teatro Scala de Milão, com o qual mantivera colaboração estreita, durante anos.

Ao lado de Wagner, Beethoven, Schumann e Mahler, a música contemporânea é uma das especialidades de Barenboim. Na Staatsoper, ele não apenas regeu obras de Pierre Boulez, Wolfgang Rihm, Isabelle Mundry e York Höller, como também apresentou What next?, única ópera do compositor norte-americano Elliott Carter, falecido em 5 de novembro de 2012, aos 103 anos de idade.

Com regularidade, Barenboim passa do pódio de orquestra ao piano. Como numa recente série de concertos no Scala, por ocasião de seu 70º aniversário, onde se apresentou ao lado do maestro italiano Claudio Abbado, entre outros colegas celebrados.

Piano, o primeiro instrumento

Piano, o primeiro instrumento

Comentários provocadores

Como israelense que, além do argentino, também possui um passaporte palestino, Barenboim acompanha em primeira mão o conflito do Oriente Médio, sem assumir uma posição unilateral.

Na entrega do Prêmio Wolf em 2004, em Jerusalém, ele criticou a política de Israel contra os palestinos, em seu discurso de agradecimento. Diante do Knesset, o parlamento do país, provocou escândalo ao citar nada menos do que a Declaração de Independência de Israel, de 1948.

O então presidente Moshe Katsav censurou, ainda, o artista por supostamente ofender os sobreviventes do Holocausto, ao reger obras de Richard Wagner. Não obstante, Daniel Barenboim segue convencido de que a música é capaz de eliminar as barreiras do ódio. E em 1999, juntamente com o intelectual palestino Edward Said, reúne pela primeira vez, para um workshop, jovens músicos israelenses e palestinos em Weimar, no Leste alemão.

Ocidente mais Oriente

O resultado foi a criação da orquestra West-Eastern Divan Orchestra – denominada a partir de uma coletânea de poemas do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Desde então, o conjunto oriental multinacional sai sempre em turnê em meados do ano, no verão europeu.

Concerto na Fundação Barenboim-Said, em Ramallah

Concerto na Fundação Barenboim-Said, em Ramallah

Ele é formado por músicos de Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Líbano e Egito. Atipicamente, da ordem do dia da orquestra, além dos ensaios musicais, constam também polêmicas discussões sobre temas políticos da atualidade.

"O mais importante é entrar em diálogo com os demais", afirma Barenboim no documentário Knowledge is the beginning (Conhecimento é o princípio). "Isso não significa que se deva aceitar o ponto de vista do outro. No entanto, num fórum como esse, os músicos têm a chance de aprender tolerância."

Notas versus pedras

Um dos pontos altos da trajetória do conjunto foi um aclamado concerto em 2005, em Ramallah, Cisjordânia, para o qual os instrumentistas só puderam viajar cercados das medidas de segurança mais rigorosas e munidos de passaportes diplomáticos espanhóis.

Enquanto os músicos israelenses entravam pela primeira vez em território israelense, seus colegas árabes jamais haviam atravessado Israel. Nessa aventurosa viagem, todos puderam constatar o quanto as fronteiras – até então aparentemente intransponíveis – os haviam privado de aprender sobre a vida das pessoas "do outro lado".

Como explica o maestro fundador, a West-Eastern Divan Orchestra só terá alcançado sua verdadeira dimensão depois de ter se apresentado em todos os países de origem de seus integrantes.

Num documentário, uma repórter israelense lhe perguntou se a educação musical impediria um menino palestino de atirar pedras contra os israelenses. Barenboim replicou que não crê nisso, mas que, com a música, ele poderá dar a esses jovens algo de que eles não vão mais querer ser privados.

"E quando as crianças frequentam três ou quatro vezes por semana a aula de violino ou violoncelo, durante esse tempo elas não estarão remoendo ideias radicais."

À frente da West-Eastern Divan Orchestra em Sevilha, julho de 2012

À frente da West-Eastern Divan Orchestra em Sevilha, julho de 2012

70 anos em Berlim

A Fundação Daniel Barenboim em Berlim não apoia apenas a West-Eastern Divan Orchestra, mas também numerosos projetos musicais e educacionais no Oriente Médio. Em conjunto com o Centro Musical Barenboim-Said, em Ramallah, ela incentiva jovens músicos de diferentes faixas etárias em Israel e na Cisjordânia.

Os alunos do jardim de infância Edward Said, em Ramallah, já são apresentados à música desde pequenos. Por iniciativa de Daniel Barenboim, também foi inaugurado em Berlim, 2005, um jardim de infância musical. Os integrantes da Staatskapelle Berlin, que ele dirige, costumam fazer visitas à escola, levando seus instrumentos.

É óbvio que a concepção do regente natural da Argentina, de uma educação através da música capaz de fomentar a convivência social, encontra excelente ressonância em Berlim. Em seu 70º aniversário, em 15 de novembro de 2012, ele se apresenta na capital alemã ao lado da Staatskapelle, sob a batuta de Zubin Mehtaund, para um concerto beneficente em favor do jardim de infância musical.

Autoria: Corina Kolbe / Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

Mais sobre este assunto