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Crise na Crimeia impõe dilema a Pequim

Jeanette Seiffert (av)19 de março de 2014

Com problemas separatistas internos, China tenta se equilibrar para manter aliança estratégica com Rússia sem, ao mesmo tempo, dar apoio à anexação da península. Chineses podem lucrar economicamente com isolamento russo.

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Presidentes Vladimir Putin (e) e Xi JipingFoto: picture-alliance/dpa

Há décadas, o princípio básico da política externa de Pequim tem sido o de não interferir em assuntos de outros Estados. E os chineses esperam o mesmo dos demais – por exemplo, dos russos. No caso da Ucrânia, porém, esse mesmo princípio impõe um dilema ao se opor a um interesse central de Pequim: manter o bom relacionamento com Moscou.

"As relações sino-russas estão atualmente na melhor fase de nossa história mútua", enfatizou, em março, o primeiro-ministro Wang Yi, numa coletiva de imprensa por ocasião da sessão anual da Assembleia Nacional Popular. Segundo ele, há confiança e apoio recíprocos, além de uma amizade profunda unir seus presidentes.

De fato, Pequim precisa de Moscou como aliado contra o Ocidente. E no contexto da crise da Crimeia, certas vozes na China pretendem caracterizar o lado ocidental como agressor. "O Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, não deseja um mundo pacífico e se imiscui por toda parte. Isso cria turbulências", declarou à TV alemã Chen Xinming, especialista em Leste Europeu da Universidade Popular de Pequim. "A China e a Rússia precisam uma da outra estrategicamente, a fim de poderem opor resistência à dominância ocidental."

Segundo Sven Gareis, especialista em assuntos chineses da Universidade de Münster, a sensação de estar cercada pelo Ocidente, e sobretudo pelos EUA, é de grande significado para a política externa de Pequim. "A Rússia é vista como uma parceira importante, em que é possível se fiar e de quem se espera respaldo. E é claro que não se quer expor publicamente um parceiro assim", afirma.

Parceria sino-russa posta à prova

Porém, Pequim também deseja se ater ao princípio de não intervenção. E não é de espantar que tenha evitado se manifestar claramente quanto à legitimidade do referendo que, em 16 de março, definiu a independência da Crimeia e sua adesão à Federação Russa.

Questionado, em entrevista coletiva, se a China reconhecia a legalidade da votação popular, por duas vezes o vice-primeiro-ministro Li Baodong tergiversou. Ele se limitou a expressar a expectativa de que "todos os lados mantenham a cabeça fria e procurem uma solução política".

Exiltibeter Free Tibet Proteste
Tibetanos no exílio exigem independênciaFoto: AP

O apoio chinês à aliada estratégica Rússia já mostrou seus limites no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando, pouco antes do referendo na Crimeia, a Rússia vetou a resolução relativa à Ucrânia, a China se absteve de votar: nos bastidores, diplomatas ocidentais falaram em "um tapa" no Kremlin, cujo voto Pequim normalmente acata.

O atual presidente do Conselho da ONU, o ministro luxemburguês do Exterior Jean Asselborn, louvou expressamente o fato de a China rejeitar todo passo unilateral levando à alteração de territórios estatais, e de reivindicar a formação de um grupo internacional de coordenação.

Para Gareis, o caso no Conselho de Segurança ilustra bem o dilema chinês: por um lado, não dar aos russos carta branca na Crimeia, mas, por outro, igualmente negar seu apoio a uma resolução ocidental.

Tibete, Taiwan e outros problemas

Do ponto de vista da política interna, Pequim também tem motivos eloquentes para não defender abertamente demais os planos de anexação de Vladimir Putin. "A China não pode apoiar o referendo, pois, afinal de contas, também temos os nossos problemas", lembra o especialista em assuntos europeu-orientais Chen Xinming.

Esses problemas são o Tibete, Xinjiang, Hong Kong e Taiwan. Se a República Popular aceita o resultado da votação na Crimeia, por que não se valeriam as mesmas regras para essas regiões em território chinês, que igualmente reivindicam independência?

"Desse ponto de vista, naturalmente é um cenário de pesadelo para a China alguém vir de fora, impor um referendo com pressão militar, e acarretar a secessão de um território", analisa Gareis.

Enquanto, no nível político, Pequim se debate em contradições, as possíveis sanções econômicas do Ocidente contra a Rússia poderiam antes beneficiar os chineses. "A Rússia iria se afastar cada vez mais da Europa, o vencedor da crise seria a China", avalia o presidente do Comitê para o Leste da Economia Alemã, Eckhard Cordes, falando à revista Fokus.

Symbolbild Export China
Sanções contra Rússia podem beneficiar ChinaFoto: picture-alliance/dpa

A República Popular, que já é hoje a maior importadora de petróleo russo, ficaria satisfeita com esse desdobramento, transformando-se no grande ganhador da crise da Ucrânia e confirmando o provérbio alemão: "Quando dois brigam, um terceiro leva vantagem."

Sven Gareis, porém, rebate: "Não acredito que a China vá se deixar guiar por interesses de curto prazo e que esteja torcendo para lucrar com a situação." Para o cientista político, Pequim estaria mais preocupado com a estabilidade de longo prazo na região.

Além disso, a economia chinesa também depende de boas relações com o Ocidente. Por esse motivo, nas próximas semanas o número de equilibrismo político da China pode se tornar bem mais precário. No final de março, o presidente Xi Jinping está convidado por vários governos do Oeste da Europa: é bem provável que, então, ele tenha que definir de que lado está em relação à Ucrânia.