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Alemanha

Alemãs usam o Twitter como um grito contra o sexismo

Na noite de 24 de janeiro, em apenas algumas horas, um post no Twitter causou uma grande repercussão. O elogio duvidoso feito por um político a uma jornalista gerou uma discussão fervorosa sobre o sexismo na Alemanha.

Tudo começou quando uma jornalista revelou que havia recebido um elogio um tanto indiscreto de Rainer Brüderle, candidato do Partido Liberal (FPD) a chanceler federal, durante um evento oficial há um ano. Ele disse à jornalista que seu decote "certamente poderia encher um dirndl" – vestido típico do sul da Alemanha.

Esse é o típico comentário que gera algumas risadas e é logo esquecido, mas também pode levar a pensar na frequência com que as mulheres recebem esse tipo de "elogio" – diariamente, de maneira subliminar e ainda assim tão evidente. Mas é possível lutar contra o sexismo velado.

Opressivo e vergonhoso

Foi assim que duas usuárias do Twitter começaram uma ação com a hashtag #Aufschrei (grito ou indignação, em alemão), para incentivar as mulheres a descreverem suas experiências em 140 caracteres. A resposta foi enorme e imediata.

Decote do dirndl inspirou comentário indiscreto de Brüderle

Um dia após o início da campanha, uma das criadoras da iniciativa, Nicole von Horst, ficou impressionada com impacto que haviam criado. "Não esperava tal reação", disse Horst à DW. "Ainda não consegui ler, responder ou ao menos organizar todos os tweets com #Aufschrei."

Em quatro dias, chegaram mais de 57.500 mensagens. Os curtos relatos vão de situações mais extremas e assustadoras às mais cotidianas. Exemplos incluem: "O médico deu um tapinha na minha bunda quando fui levada ao hospital depois de uma tentativa de suicídio", ou "O homem que chega para você depois que você saiu do trem e diz: espera aí, moça bonita". Colocadas uma abaixo da outra, essas centenas de pequenas histórias traçam o retrato de uma sociedade opressora.

Compreensão e malícia

As histórias relatam olhares maliciosos, professores de educação física fixados nos seios das alunas, cantadas em trens, ruas, clubes e no trabalho – assim como assédio e agressões sexuais dentro da própria família.

O grande número de relatos chamou a atenção da mídia, e o debate na internet começou a esquentar. Muitos homens também expressaram seu apoio. "Essa timeline é inacreditavelmente triste – faça sua voz ser ainda mais ouvida", escreveu um usuário.

Sucesso inesperado

A característica marcante da iniciativa não é sua conexão com a indiscrição de um político de alto escalão, mas o fato de tantas mulheres quererem compartilhar suas experiências. Horst espera que o debate continue sendo levado a sério e não só como "uma espécie de voyeurismo relacionado a um político famoso".

Assédio acontece na rua, em casa e no trabalho

Com o anonimato da internet, um grande número de usuários entrou na discussão, postando críticas e comentários. "Alguns deles não param de comentar – mesmo bloqueados não temos como removê-los completamente do feed #Aufschrei. Muitos ridicularizam a iniciativa e postam comentários sobre as atitudes sexistas das mulheres em relação aos homens, em uma tentativa de trivializar o assunto."

Mas a ação tem sido até agora um sucesso como uma maneira de extravagar angústias pessoais. Muitas mulheres se sentem aliviadas por não estarem sozinhas em suas experiências e se alegram que outras também tenham a coragem de compartilhar sua história.

O assunto ainda deve repercutir na mídia, blogosfera e nas redes sociais nos próximos dias. Horst espera que o debate encoraje outras mulheres a não ignorarem o assédio sexual, mas a fazerem algo a respeito. "Seria ótimo estabelecer uma plataforma em alemão que não apenas compilasse informação sobre o assédio sexual, mas também fortalecesse as mulheres, dando dicas de como responder ao assédio, além da possibilidade de compartilhar histórias pessoais."

Autor: Silke Wünsch (mas)
Revisão: Francis França

DW.DE