1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Índios venezuelanos querem de volta pedra exposta em parque de Berlim

Há 14 anos, uma pedra retirada de um parque nacional na Venezuela e levada para a Alemanha deu início a uma disputa que dura até hoje. Índios dizem que a Kueka foi levada sem que eles tivessem sido consultados.

O que era para ser uma obra para promover a paz mundial acabou virando um objeto de conflito entre um artista alemão e uma comunidade indígena na Venezuela.

Em 1998, o alemão Wolfgang von Schwarzenfeld encontrou na Venezuela, mais precisamente dentro do Parque Nacional Canaima, localizado na fronteira do país com o Brasil e Guiana, a pedra que considerou ideal para representar o continente americano no seu projeto Global Stones. Na exposição permanente localizada no parque Tiergarten, em Berlim, cada pedra simboliza o continente de onde veio.

Schwarzenfeld argumenta que a contribuição venezuelana foi uma doação feita pelo governo e pelo povo do país. Mas os indíos pemón, que habitam a região de onde a pedra foi retirada, contestam essa afirmação e dizem que pedra foi simplesmente levada sem que eles fossem consultados.

Os indígenas tentam até hoje recuperar a Kueka, nome pelo qual a pedra de 35 toneladas é conhecida. Em entrevista à DW Brasil, a líder pemón Lisa Percy conta que a Kueka possuiu um importante significado para a sua cultura. "Nossos avós insistem que as mudanças climáticas e os desastres naturais acontecem por causa da ausência da pedra", afirma.

Pedra de 35 toneladas está exposta no parque Tiergarten, em Berlim

A pedra do amor

No projeto Global Stones, a Kueka representa o amor. A lenda indígena em torno dela também está relacionada a esse sentimento. "Dois jovens apaixonados que não podiam ficar juntos foram castigados e transformados em pedra", conta Percy.

Ela relata mudanças que aconteceram na região nos últimos anos. "No inverno o rio enchia até o local onde estavam essas duas pedras, que formavam uma parede. Esse local enchia de peixes e hoje isso não acontece porque a Kueka não está mais lá", afirma.

A representante indígena se lembra do dia em que a pedra foi levada. Ela e quase toda a comunidade participavam de um bloqueio numa rodovia, em protesto contra a construção de uma linha de transmissão. "Ficamos acampados 24 dias e um dia chegou o caminhão transportando a Kueka. Perguntamos ao motorista quem autorizou a remoção da pedra, mas ele não sabia nos dizer. Então, pedimos para que ele a levasse de volta. Mas ele a deixou no posto da Guarda Nacional", relata Percy. Segundo ela, alguns meses depois a pedra foi transportada para Caracas.

Schwarzenfeld afirma que ele selecionou algumas pedras na região, mas a escolha final foi feita por cincos funcionários do parque, integrantes da comunidade indígena. Os indígenas contestam essa versão. "Ela foi levada quando não havia praticamente ninguém na comunidade. E todas as nossas decisões devem ser tomadas em conjunto", afirma Percy.

No período entre a remoção e o transporte para a Alemanha, houve protestos do governo venezuelano e de organizações ambientais, que tentaram impedir a ação, argumentando que era uma pedra valiosa. Mas, segundo o artista, ele possuia toda a documentação comprovando a doação e a pedra foi liberada.

Todos esses documentos e a autorização dada pelo governo venezuelano da época estão disponíveis no site do artista. Apesar disso, a situação é muito delicada. Teoricamente a remoção da pedra não seria possível, pois ela estava dentro de um parque nacional que, desde 1994, é patrimônio mundial da humanidade pela Unesco e deveria ser intocável. "Nós vivemos na região e não podemos retirar nenhuma pedrinha. Por que alguém de fora tem esse direito?", questiona Percy.

Para os índios, a pedra simboliza o amor

Devolução da pedra?

Em junho deste ano as manifestações para a devolução da pedra se intensificaram. Indígenas pemón protestaram em frente à Embaixada da Alemanha em Caracas. O artista declarou à imprensa que estaria disposto a devolvê-la, mas suas condições deveriam ser aceitas. A principal é receber uma nova pedra.

No entanto, passado quase seis meses, a Kueka continua no Tiergarten. As últimas informações que os índios receberam foi que o governo venezuelano está negociando a devolução com Schwarzenfeld. Para isso, o artista exige uma nova pedra para substituir a exposta.

"Nós não vamos enviar nenhuma pedra. Além disso, ouvimos que os custos de transporte não serão pagos pelo artista ou pelo governo alemão, e o governo venezuelano alega que as despesas devem ser cobertas por quem levou a pedra", diz Percy.

Ela afirma que os pemón não desistiram de recuperar a Kueka e estão planejando outras manifestações para o ano que vem. "Com esse caso, estamos também denunciando a cumplicidade do governo da época e das autoridades", diz Percy.

As negociações continuam

Schwarzenfeld afirma que, há 14 anos, a Kueka não possuía nenhum significado para os indígenas. Hoje eles estariam sendo manipulados por ativistas ambientais, políticos e funcionários estatais que criaram esse mito.

Apesar da controvérsia, o artista afirma estar disposto a procurar outra pedra em outro país americano para substituir a Kueka em sua obra. A Embaixada da Venezuela em Berlim confirmou as negociações, mas não quis comentar o assunto.

Segundo o Ministério do Exterior da Alemanha, o governo alemão não está participando das negociações, pois nenhum dos lados envolvidos solicitou o seu auxílio. Um porta-voz do ministério afirmou em junho que o ministério sabe que o problema existe e procura, com todos os envolvidos, encontrar uma solução consensual e satisfatória.

Autora: Clarissa Neher
Revisão: Alexandre Schossler

DW.DE